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Caso Polyanna Arruda Investigação concluída, mas haverá Justiça?

Depois de dois anos e três meses de investigações, os quatro acusados pela morte da publicitária estão presos, mas nada garante que eles ficarão na cadeia. O caso desnudou a fragilidade da polícia e da Justiça frente ao poder dos bandidos 

Crime desnuda fragilidade de polícia e Justiça diante do poder dos bandidos
Investigação só foi concluída depois de passar por três delegacias, três secretários de Segurança Pública e três diretores da Polícia Civil
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Os quatro homens acusados no crime contra a publicitária Polyanna Arruda: longo histórico de ocorrências 
que têm, sem maiores problemas com a Justiça, lhes dava certeza de que sairiam impunes de mais uma

A conclusão do in­qué­­rito sobre a mor­­­te da publicitária Polyanna Arru­da e a prisão dos quatro acusados — Assad Haidar de Cas­tro, de 23 anos; Marcelo Barros de Carvalho, o “Ga­guim”, de 23 anos; Diango Gomes Ferreira, de 35 anos; e Leandro Garcez Cascalho, de 34 anos — põe fim a uma in­vestigação de dois anos e três meses que envolveu diversas ins­tâncias da polícia, teve uma repercussão espetacular na imprensa e trouxe à tona facetas desconhecidas do sistema de segurança pública do Estado e do crime organizado em Goiás.

Em um primeiro momento, o sequestro da publicitária em plena luz do dia — às 7 horas da manhã — e em um local movimentado — na porta de uma faculdade — deixou claro que não existe lugar nem horário seguro em Goiânia. Poly­anna Arruda foi vítima de uma quadrilha de ladrões de carro que, a princípio, estaria interessada no automóvel Prisma que a publicitária dirigia, mas que, por algum motivo, levou a vítima, contrariando o modo de agir nesse tipo de crime. A polícia acredita que, sob efeito de drogas, eles perderam o controle e acabaram matando a publicitária. Mas não foi a droga que lhes deu coragem para roubar e matar, e sim a certeza da impunidade: todos eles já tinham passagem pela polícia por roubo de carro a mão armada ou receptação de veículo roubado.

O acusado de encomendar o carro, Leandro Garcez Cascalho, já havia sido preso por suspeita de receptação de carro roubado antes da morte de Polyanna Arruda e, depois do crime contra a publicitária, foi condenado duas vezes por delitos semelhantes. Não foi preso em nenhuma das vezes. As investigações mostram que Leandro Garcez fomentava o roubo de carros em vários Estados. Ele é proprietário da lo­ja Batidos.com, que funciona no Jardim Ana Lúcia. Não é segredo para ninguém que o mercado de peças de veículos de Goiânia é abastecido também por carros roubados e que o roubo de veículos conta com a conivência de alguns policiais civis e militares, o que, de certa forma, explica a demora excessiva da polícia para desbaratar esse crime organizado.

Crimes que precisam da participação de pessoas como Diango Gomes Ferreira, que, por trás da fachada da oficina mecânica Dia­ngo’s Centro Automotivo, “ressuscita” carros batidos com peças de veículos roubados. Em abril de 2010, ele foi condenado, por receptação qualificada, a quatro anos e seis meses de reclusão em regime semiaberto e, em outubro de 2011, voltou a ser condenado pela Justiça pelo receptação de um veículo roubado em março de 2009. Con­denado por duas vezes, mas em liberdade, ele voltou a cometer a mesma infração. Dessa vez, a tentativa de roubo resultou na morte de Polyanna.  O mecânico também é citado no inquérito policial que apura o crime de roubo qualificado de um Prisma preto na noite de 23 de setembro de 2009, no Jardim Europa. No mesmo dia em que a quadrilha matou Polyanna Arruda.

Assad Haidar de Castro, considerado pela polícia o mais perigoso da quadrilha, já foi condenado por roubo à mão armada a seis anos e dez meses de reclusão em regime semiaberto. Marcelo Barros de Car­valho, que confessou ter participado do assassinato de Polyanna, responde pelo roubo de um carro e de uma moto. Os outros envolvidos na morte da publicitária e que morreram, Lavonierri da Silva e Deberson Ferreira Leandro, também faziam parte do submundo do crime. Lavonierri da Silva foi morto por policiais militares, em dezembro de 2009, quando dirigia um Prisma, roubado horas antes. Deberson Ferreira, que se apresentava como policial, foi morto em fevereiro do ano passado quando atendia uma ligação em um telefone público. Há suspeita de que seria ligado a um grupo de extermínio.

Sem monitoramento

Apesar das prisões e condenações, os integrantes da quadrilha não tinham nenhum tipo de monitoramento, estavam livres para continuar praticando crimes, apesar de serem apontados como pessoas perigosas nos inquéritos e processos.

A outra faceta descoberta a partir do crime contra a publicitária diz respeito à polícia goiana. O caso, que ganhou os holofotes da mídia graças à ação da mãe da publicitária, Tânia Borges, acendeu uma fogueira de vaidades dentro da Polícia Civil. Delegados, agentes e autoridades cobraram seu naco de fama à custa de informações desencontradas e comprometimento de provas. No primeiro momento, o inquérito ficou por conta de três delegados — Abézio Leite Barbosa, Alzemiro José dos Santos e Douglas Pedrosa —, que não se comunicavam entre si. Tânia Bor­ges conta que prestou depoimento a Douglas Pedrosa, cerca de dois meses após o crime, e que o delegado Abézio Bessa, então responsável pelo caso, não tomou conhecimento desse depoimento. Só ficou sabendo ao convocar a mãe de Polyanna para depor novamente, dias depois. Tânia recorreu a quem achou que poderia ajudá-la e de cada um recebia uma informação diferente. De Aredes Cor­reia Pires, então delegado-geral da Polícia Civil, ouviu que a investigação estava prestes a ser concluída e, nove meses depois, o inquérito era transferido de delegacia, sem conclusão.

Ao longo de dois anos e três meses, o inquérito passou por três delegacias: a Deic, a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos e a de Homicídios, onde foi concluído. O crime começou a ser investigado quando Ernesto Roller estava à frente da Secretaria de Segurança Pública, passou pela gestão da delegada Renata Cheim e foi concluído com a secretaria sob o co­mando de João Furtado. A investigação foi comandada por três diretores da Polícia Civil: Arédio Correia, Edemundo Dias e, por fim, Adriana Accorsi.

Na época em que o inquérito se encontrava nas mãos do delegado Valdemir Branco, Assad Haidar estava preso. Até ele percebeu que os investigadores não se entendiam. Assad conta que certa vez, depois de coletar sangue para o exame de DNA, uma perita pediu que ele cuspisse em um guardanapo para que o material fosse usado no exame de DNA. Pouco tempo depois, ela voltou à cela e pediu que Assad não comentasse com o delegado Branco sobre a coleta do material.

Assim que assumiu a Secre­taria de Segurança Pública, Edemundo Dias nomeou os delegados Odair Soares e Kley­ton Alencar para dar andamento à investigação. O inquérito, com cinco volumes e cerca de 2 mil páginas, apontava os culpados desde o início, mas não havia provas consistentes. Al­guns pontos ainda ficaram inconclusos. Até agora não se sabe se foi usada uma ou mais armas no assassinato de Poly­anna. Em seu corpo havia oito perfurações de bala, mas apenas duas balas foram encontradas no local e uma alojada no corpo. Segundo a polícia, a arma é de Assad Haidar, daí o fato de concluírem que foi ele quem atirou contra a publicitária. Todavia, Kleyton Alencar afirma que dificilmente ladrões saem com apenas uma arma para roubar.

Outro ponto que não foi esclarecido diz respeito ao estupro da vítima. Os peritos afirmam que não há indícios conclusivos de violência sexual e o material genético encontrado em Polyanna não é compatível com nenhum dos acusados. Ao longo da investigação foram feitos mais de 70 exames de DNA de todos os que poderiam ter estado no local do crime e estuprado a publicitária. Não se chegou a nenhum suspeito. Marcelo Barros afirma que Polyanna foi estuprada por Assad, Lavonierri e Deberson, mas o delegado Kleyton afirma que, de onde Marcelo estava, longe do local, não dava para ter certeza do estupro. Na carta de confissão que escreveu en­quanto estava preso, Marcelo diz que houve violência sexual contra Polyanna.

Mudança de delegados deu rumo à investigação

Os acusados Assad Haidar de Castro, Marcelo Barros de Carvalho, Diango Gomes Fer­reira e Leandro Garcez Cascalho foram presos na gestão de Adriana Accorsi, mas o caso foi re­­solvido sob o comando de Ede­mundo Dias. O delegado, que hoje responde pela Agência Goiana de Execução Penal, assumiu a Delegacia-Geral da Polícia Civil em janeiro deste ano, e imediatamente designou os delegados Kleyton Alencar e Odair Soares para dar andamento ao inquérito.

Dois delegados da estrita confiança de Ede­mundo Dias, considerados, no meio policial, trabalhadores e idôneos.

Kleyton tem perfil mais técnico e Odair, mais corajoso, ousado. O segundo é considerado um perdigueiro, aquele delegado que vai atrás e resolve.  Além disso, Odair Soares acompanhou o caso desde o início e se sentia obrigado a concluir o caso. Fo­ram escolhidos a dedo por Ede­mundo Dias para finalizar a investigação.

Edemundo Dias deu todas as condições para que os delegados fizessem as diligências necessárias. Muitas tiveram de ser refeitas, uma vez que o inquérito, depois de passar por tantas mãos, estava uma bagunça. Depois de tanto disse me disse e de vai e volta, entre os policiais envolvidos na investigação havia muito discórdia, muita fofoca, muita contrariedade. Esse clima dificultava ainda mais o andamento do inquérito, que teve muitos erros na sua origem.

Concluída a investigação, Edemundo Dias se reuniu com os promotores de Justiça e os delegados responsáveis pelo caso e participou do convencimento técnico, que levou o Mi­nistério Público a oferecer de­núncia sobre o caso e dar parecer favorável à prisão preventiva dos quatro denunciados.

Três dos acusados foram presos na terça-feira, 20.  Marcelo Bar­­­ros foi preso em casa, Le­andro Garcez Cascalho e Diango Gomes Ferreira nos respectivos estabelecimentos comerciais. Assad Haidar foi preso na segunda-feira, 19, em Ponta Po­rã, no Mato Grosso do Sul, divisa com o Paraguai. Há dois meses a polícia vinha acompanhando a movimentação da quadrilha por meio de escutas telefônicas. No sábado, 17, depois de perderem o contato com Assad, os policiais decidiram ir para Ponta Porã monitorar os passos do acusado até ser expedido o mandado de prisão. As­sad Haidar foi preso quando entrava na farmácia do pai por cinco policiais do Grupo Tático 3 (GT3), unidade de elite da Polícia Militar.

Nas escutas telefônicas, Assad chegou a ameaçar a polícia goiana mais de uma vez.  Durante as interceptações telefônicas, ele dizia que “os receberia a tiros de fuzil”, além de afirmar que só viria para Goiânia depois de morto e fazendo provocações dizendo que a polícia de Goiás não sabia como era lá (Ponta Porã), por ser uma divisa com outro País e ter o acesso a armas facilitado. Segundo a polícia as escutas telefônicas mostraram que Assad se comunicava com presos do Complexo Prisional (Cepaigo) para negociar a venda de fuzis AR-15 e  0.50 e estava envolvido com o tráfico de en­torpecentes, pois também foi apurado que ele enviava comprimidos de ecstasy a Goiânia.

Campana

No momento de sua prisão, Assad Haidar tinha acabado de chegar à farmácia de seu pai. O delegado informou que dois policiais estavam de campana próximo ao local e, quando ele entrou no estabelecimento, foi abordado por outros agentes, que “foram para cima dele armados”. “Ele não teve nem tempo de piscar”, descreveu Soares. Ao todo, cinco agentes participaram da prisão de Assad Haidar, que não teve nenhuma chance de resistir à prisão, como havia prometido.

Nenhum dos outros três acusados ofereceu resistência, apesar de ser um grupo extremamente perigoso, como afirmou o delegado. Os quatro negam participação no crime, inclusive Marcelo Barros, que já havia confessado quando estava na prisão. Ele alegou que confessou sob ameaça contra sua família. Assad também diz ser vítima da polícia. Durante a apresentação dos acusados à imprensa, o delegado Kleyton Alencar disse que o crime demorou para ser concluído porque era muito complexo. “Tínhamos apenas uma confissão (a do Marcelo Barros) e logo depois ocorreram os óbitos (de Deberson e Lavonierri)”. Segundo ele, há a suspeita de que Deberson tenha participado da morte do Lavonierri, em um suposto confronto com a polícia. Ele confirmou a ligação de De­berson Ferreira com policiais e a suspeita de que ele mesmo fosse um policial.

Os quatro acusados foram denunciados pelo MP pelos seguintes crimes: Assad e Mar­celo, por latrocínio (roubo seguido de morte), ocultação de cadáver, estupro e formação de quadrilha. Diango e Leandro poderão responder por roubo qualificado e formação de quadrilha. Para o latrocínio, a pena pode variar de 20 a 30 anos de reclusão; para o estupro com morte, a previsão é de 12 a 30 anos de prisão; a ocultação de cadáver, por sua vez, tem pena de um a três anos de reclusão, sendo a formação de quadrilha passível de penas variando entre um e três anos de prisão.

A denúncia oferecida pelo Ministério Público, assinada pelos promotores Arnaldo Mach­ado do Prado e Robertson Alves de Mesquita, foi direcionada à 8ª Vara Criminal de Goiânia. A morte da publicitária está relacionada com crimes cometidos pela quadrilha de roubo e adulteração de veículos. Segundo a denúncia, Diango pagaria a Lavonierri R$ 2 mil pelo Prisma preto. Par­ticiparam do latrocínio Marcelo, Lavonierri, Assad e Deberson. A participação de Deberson só foi conhecida agora, depois que os delegados Kleyton e Odair assumiram a investigação. Até então, acreditava-se que apenas Mar­celo, Assad e Lavonierre estavam no local do crime, como Marcelo havia confessado. Mas o monitoramento de ligações telefônica dos acusados mostrou que Deberson também estava no Córrego Caveirinha na hora do crime.

Agressão e estupro

Na denúncia, consta que Polyanna foi abordada por Assad com uma arma de fogo calibre 38 e obrigada a passar para o banco de trás do carro. Lavo­nierri, Deberson e Assad também entraram no Prisma e Mar­celo seguiu no outro carro para o Córrego Caveirinha. O Minis­tério Público afirma que Polya­nna foi agredida e estuprada antes de ser morta. Ao saber da morte da vítima, Diango recusou-se a receber o carro, que foi incendiado próximo à subestação da Celg, no Condomínio Shangry-Lá.  No mesmo dia, As­sad e Lavonierri roubaram outro Prisma preto, de propriedade da empresa Pirassununga, para adulterar um carro semelhante, adquirido em leilão.

Na apresentação dos acusados, chamou atenção o comportamento de Assad. Enquanto os três mantiveram o tempo todo a cabeça baixa, Assad manteve a sua erguida. Leandro, por sua vez, não levantou os olhos uma única vez. Assad afirmou estar muito nervoso, mas em momento algum pareceu intimidado pela imprensa ou pelo grande número de policiais armados. Chegou a bater boca com um repórter de televisão e acusou a polícia de acusá-lo para concluir o inquérito. Aos 23 anos, Assad é pai de uma menina de 5. Falou que fugiu para Ponta Porã, em abril deste ano, para não ser morto, uma vez que dois integrantes da quadrilha haviam sido assassinados, e negou envolvimento com policiais.

Com me­nos de 1,60 metro, magro e jovem, Assad não parece ser o bandido perigoso que a polícia diz ser. Mas as fotos do corpo de Polyanna Arruda, cruelmente torturado, confirmam o que a polícia diz.

 

Fonte: Jornal Opção

 
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