Crescimento desordenado e falta de investimentos marcam Luziânia
Problemas comuns às cidades goianas que circundam o DF também afligem o município de 174 mil habitantes. E a violência atingiu níveis alarmantes, com os adolescentes na linha de fogo
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| P.B.C. com o filho: morte do marido e pai afeta o desempenho escolar do garoto e os faz temer sair de casa |
A calmaria típica de interior, antes característica de Luziânia, perdeu-se com o tempo. Nos últimos 10 anos, o município goiano distante 58 km de Brasília cresceu de maneira desordenada e a população já sente os efeitos da falta de investimentos por parte das autoridades de Goiás. A segurança é um dos temas mais críticos, principalmente em relação à falta de políticas públicas voltadas para crianças e adolescentes. O descaso revela dados assustadores: a cada mil jovens de 12 a 18 anos da cidade, pelo menos cinco são assassinados. É o maior índice de morte de adolescentes do Centro-Oeste.
Os dados são resultado de uma pesquisa feita em 2009 pelo Observatório de Favelas, pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
Também em Luziânia, foram registrados 53% dos desaparecimentos no estado de Goiás no ano de 2009. Em janeiro de 2010, o sumiço de seis jovens - todos moradores do bairro Parque Estrela D’Alva - chocou o país. Eles foram encontrados mortos em abril do ano passado, após o pedreiro Adimar de Jesus Silva, 40 anos, ser preso e confessar os crimes. Antes disso, as mães dos garotos fizeram seguidas manifestações na cidade e em Brasília cobrando providência das autoridades. O caso foi noticiado com exclusividade pelo Correio (veja memória).
Jardim Ingá
Em Luziânia, os setores mais afastados do centro — como o bairro Jardim Ingá, distante 15 km — estão entre os mais perigosos de Goiás. Foi no Ingá que a violência bateu a porta da casa da dona de casa P.B.C, 33 anos. Em 19 de setembro de 2010, o marido dela foi assassinado por três homens armados. O bando invadiu sua loja de autopeças e lanternagem e tentou levar o carro da vítima. Mesmo sem reagir, o homem foi morto na frente da mulher e do filho, de 12 anos.
A criança está com baixo desempenho na escola e sempre que fala no pai desaba em choro. A dor da perda e a forma como ela aconteceu geraram revolta na família. O atirador foi preso e outro foi morto dias depois. O terceiro segue foragido. “A gente evita sair de casa e, quando sai, é só acompanhado. Tenho medo de sair na rua e penso em mudar de lugar. Eles acabaram com a nossa vida”, desabafou P.B.C, abraçada ao filho.
Do total de latrocínios e homicídios, apenas 10,7% registrados entre janeiro de 2009 e fevereiro de 2010 foram solucionados. Para o delegado-chefe do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) de Luziânia, Rosivaldo Linhares, a situação não é só questão de polícia. “A população é muito grande, há muito desemprego e muitas mães solteiras com filhos criados sozinhos em casa. É um problema social acima de tudo”, defendeu.
A situação é um reflexo do crescimento desordenado. De 2000 para cá, a população de Luziânia, que era de 141.082 habitantes, pulou para 174.546 — incremento 23,7%. As terras passaram a ser ocupadas e os terrenos cercados, mesmo que sem asfalto e iluminação. Criado na década de 1970, o Jardim Ingá recebeu ainda mais habitantes de todos os cantos do Distrito Federal e estados. Hoje, a população já passa de 90 mil moradores e o setor é composto por 24 bairros. O resultado da expansão foi um crescimento acompanhado da violência.
Para dar conta de investigar todos os crimes, atualmente, 15 agentes trabalham em esquema de plantão na delegacia da cidade. São seis policiais para atender diariamente ocorrências de roubo, furto e homicídio. “O ideal seria pelo menos 50 policiais no mês. O plantão não investiga crimes, só atende o público”, contou um agente que preferiu não se identificar. Para o delegado Linhares, não há deficit de pessoal ou falta de viaturas. “Esta delegacia está perfeita e o efetivo está bom. Está tudo certo”, disse ele em entrevista ao Correio.
Memória
Maníaco no Estrela D’Alva
Em 16 de janeiro de 2010, o Correio Braziliense publicou, com exclusividade, a primeira reportagem sobre o caso dos desaparecimentos de jovens no bairro Parque Estrela D’Alva, em Luziânia. A matéria destacou o clima de medo que rondava a cidade que, à época, já registrava o sumiço de Diego Alves Rodrigues, 13 anos; Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; e Divino Luiz Lopes da Silva, 16. Dois dias depois, seria a vez de a quinta vítima, Flávio Augusto dos Santos, 14, deixar a casa da família para nunca mais voltar. Em 22 de janeiro, Márcio Luiz de Souza Lopes,19 anos, tornou- se o sexto jovem a desaparecer em Luziânia.
O caso ganhou repercussão nacional e mobilizou parlamentares e até o Ministério da Justiça. As investigações, comandadas pela Polícia Civil de Goiás, receberam o reforço da Polícia Federal. Em 20 de março, Eric dos Santos, 15 anos, saiu de casa, no bairro Santa Fé, para dar aulas de dança e também desapareceu. Em 10 de abril, o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, foi preso e confessou os crimes. No dia seguinte, o homem acompanhou os investigadores até a Fazenda Buracão e indicou o local onde havia enterrado os corpos. Já na cadeira, em Goiânia, ele se enforcou usando um tecido do colchão em que dormia.
Medidas para melhorar a saúde
Na saúde, a situação não é menos crítica. O único hospital público da cidade não é suficiente para atender todos os pacientes que necessitam de assistência. Casos graves são encaminhados para Anápolis, município goiano distante 156 km. Além disso, o Hospital Regional de Luziânia, instalado logo no início da cidade, apresenta problemas típicos dos hospitais públicos do país. Pacientes esperam horas até serem atendidos e nem sempre contam com médico.
Sentada em um banco do lado de fora, a dona de casa Maria Neusa Ribeiro, 43 anos, amargava o descaso com a saúde pública. “Lá dentro está lotado. Não tem jeito de ficar, não”, disse ela, com o sol queimando a pele e o soro pendurado em um arame amarrado na coluna de madeira do hospital. Enfermeiros da unidade de saúde tentaram impedir que a reportagem fotografasse a cena. Uma delas colocou a paciente dentro do hospital e, em menos de cinco minutos, Maria Neusa - que sofre de anemia - deixou a unidade já sem o soro. “Falaram que eu fotografei porque queria aparecer”, contou a paciente.
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Projetos
A reportagem entrou em contato com o secretário de Saúde, Felipe Alves Cesáreo. Ele afirmou que, para 2011, estão previstos inúmeros projetos na área da saúde e ajustes no hospital da cidade. A primeira medida será entregar seis unidades de saúde da família, ainda no primeiro semestre deste ano. Também deve ser instalada uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) próximo ao hospital para desafogar a demanda. Para o próximo mês, a prefeitura pretende iniciar a construção do Hospital Maternoinfantil para atendimento das grávidas e crianças. “Vai ser um hospital de alta complexidade, com UTI materna e 10 leitos neonatais e centros obstétrico”, explicou Cesáreo. A obra está em fase de licitação.
Segundo o prefeito de Luziânia, Célio Silveira, os recursos oriundos do estado são insuficientes para manter a saúde no município. Em relação à segurança, o prefeito admitiu ter dificuldade para resolver o problema. Ele atribuiu a violência ao crescimento desordenado na última década. “O número de policiais é muito pequeno para atender a demanda. Inicialmente, minha intenção é propor o pagamento de hora extra para o policial que estiver de folga ir trabalhar”, disse. Na área do lazer para jovens, ele afirmou que um centro poliesportivo no centro da cidade será inaugurado no próximo mês.
Em relação à infraestrutura, Célio diz que mais de R$ 15 milhões foram investidos em Luziânia em asfaltamento de ruas e avenidas. A mais recente obra é a duplicação da avenida Sarah Kubistchek e a construção do viaduto no centro da cidade para desafogar o trânsito.
Fonte: www.correiobraziliense.com.br/ Mara Puljiz
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