Tráfico de drogas é o principal crime cometido pelas mulheres presas em Goiás. A representatividade do delito aumenta a cada ano. Dados da Agência Goiana do Sistema de Execução Penal (AGSEP), que controla 75 presídios no Estado, aponta o crescimento sucessivo da população carcerária composta por mulheres, sendo que mais da metade delas (67,9%) respondem por tráfico. Em 2009, o porcentual era de 33,5% em relação às 489 presidiárias. Hoje, são cerca de 630 detentas e 428 acusadas de comercializar entorpecentes. Isso porque nos números não entram os registros dos presos que permanecem sob custódia das polícias Civil e Militar, e que podem elevar ainda mais a estatística.
Só na Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc), em Goiânia, tinham, na noite do último dia 4, seis mulheres que aguardavam a decisão para serem encaminhadas para a Casa de Prisão Provisória (CPP), em Aparecida. O delegado auxiliar Eduardo Prado expôs que as presas continuam no local por falta de vaga no sistema prisional. As celas teriam capacidade máxima para cerca de 15 pessoas, entre homens e mulheres, e estavam detidas 36. Há sete anos na função, Prado considera visível o aumento da participação de mulheres no tráfico. Os números goianos acompanham tendência nacional revelada por dados do Ministério da Justiça. A quantidade de presas por tráfico no Brasil cresceu de 11 mil, em 2009, para mais de 14 mil em 2010. O delegado relata já ter executado prisões nas mais diversas situações e envolvendo pessoas de todas as idades. Destaca casos em que acusadas chegaram a esconder a droga dentro do órgão sexual.
Entre as que estão presas na Denarc, a jovem A.C.A., de 21 anos, foi parar no local por compactuar com a ação do marido A.R.V., também de 21, e que está alojado na cela masculina, ao lado da dela. O rapaz, que se diz auxiliar contábil, foi pego em flagrante no Residencial Recanto do Bosque, região norte de Goiânia, portando uma porção de cocaína e outra de maconha. Ele argumenta ser usuário, somente, e desconhecer o motivo de estar preso. Já a moça se defende falando que nunca vendeu drogas, sequer utilizou. Eles namoraram um ano e meio antes de se casarem e vivem juntos há um ano. Questionada se já sabia antes do envolvimento do companheiro com entorpecentes, A. diz ter tido conhecimento logo depois de casada e permaneceu junto por amá-lo.
A jovem entra em uma das principais justificativas de especialistas para a crescente participação feminina no crime. A socióloga e membro da coordenação nacional da União Brasileira de Mulheres, Eline Jonas, considera a questão complicada e a descreve como um misto de afetividade e comodismo econômico. Ela defende a noção de que as mulheres se sujeitam ao tráfico por ter envolvimento amoroso com homens que cometem o crime e acabam sendo usadas como forma de escamotear o criminoso.
O potencial estratégico da mulher na execução de delitos é fator primordial. Eline argumenta que não é impossível ver mulheres, por exemplo, participando de outras modalidades que não seja o tráfico de drogas, pelo contrário. Quase sempre fazem parte. “Não se vê mulher sequestrando, roubando carro a mão armada, mas ela está lá na casa, no local de depósito. É uma relação chave para o sucesso da ação”, diz. Um dos pontos colocados pelo delegado Eduardo Prado é justamente este. A mulher implica maior dificuldade à investigação. Além da facilidade de guardar a droga, ela ainda não é vista como figura suspeita e a maioria dos policiais é homem. Na abordagem cotidiana, mulheres só podem ser revistadas por mulheres.
Eline justifica o aumento por meio da dificuldade das mulheres viverem em igualdade e terem acesso efetivo aos serviços públicos, à educação e conquistar a própria autonomia. “Isso é previsto em lei, mas na realidade é diferente. O envolvimento com o companheiro muitas vezes se torna dependência econômica e ela fica presa a isso.” Exemplifica a disparidade com o dado de que a mulher ainda ganha 30% menos que os homens no mercado de trabalho. Questão não deixa, portanto, de ser social, política e econômica.
Quando a reportagem chegou a Denarc para visitar as detidas, todas se demonstraram acanhadas e temerosas em falar ou aparecer. Frases unânimes, no entanto, foram ditas quase que em coro: “Falta trabalho. Faltam centros de reabilitação específicos para a mulher. Somos usuárias.” Os flagrantes feitos pela PM em ocorrências cometidas por mulheres também aumentam de ano para ano. Em 2010, foram 104 frente às 99, de 2009, e as 79, de 2008.
Fonte: O Hoje/ Galtiery Rodrigues