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Desprestígio político de Goiás em Brasília

Estado possui apenas cinco pessoas ocupando cargos importantes na administração de Dilma Rousseff. Pequena bancada no Congresso dificulta nomeação de políticos goianos




Apesar do apoio concedido à presidente Dilma Rousseff (PT) na campanha e no governo, PT e PMDB, os dois principais partidos da base governista, estão tendo dificuldades para emplacar indicações goianas em cargos de destaque em Brasília. O desprestígio se estende aos outros partidos da base governista e é um reflexo da eleição do ano passado. Fica difícil negociar cargos sem ter uma base sólida de parlamentares no Congresso Nacional para sustentar o governo federal. Os nomes de Goiás que foram emplacados podem ser contados nos dedos das mãos.

Apenas cinco goianos ocupam cargos de destaque no governo federal. O economista Sérgio Duarte está na Secretária de Políticas de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional. Seu cargo foi uma indicação técnica. Evangevaldo Moreira dos Santos, indicado pelo PTB do deputado federal Jovair Arantes, preside a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Ruy Gomide ficou com a diretoria de Engenharia e Saúde Pública da Fundação Nacional de Saúde (Funasa); o peemedebista Marcelo Melo vai ocupar a diretoria de Operações e Abastecimento da Conab; Mauro Barbosa da Silva é o chefe de gabinete no Ministério dos Transportes – ele já foi diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit).

Paradoxalmente, os goianos que ocupam cargo de maior destaque no governo federal não entram mais na conta dos partidos goianos. O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles (PMDB) vai comandar a Autoridade Pública Olímpica (APO), órgão que acompanhará o andamento das obras para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro e toda a organização acerca do evento. A interação do ex-presidente do BC com o partido em Goiás é pequena, para não dizer que é nula. Meirelles também foi indicado como o representante da União no Conselho Público da APO. No Conselho, o ex-presidente do BC fará companhia a Eduardo Paes (PMDB) e Sérgio Cabral (PMDB), respectivamente prefeito capital carioca e governador do Rio de Janeiro.

Na Valec – Engenharia, Construções e Ferrovias S.A, Francisco das Neves, conhecido como Juquinha das Neves, continuou como presidente mesmo após a saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Apesar de ser ligado ao PR goiano, Juquinha não precisou recorrer ao partido para continuar no cargo.

E no PT, partido da presidente Dilma, o goiano Olavo Noleto é quem ocupa cargo relevante em Brasília. Noleto é ligado ao ex-deputado federal Pedro Wilson (PT) e é subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais. Na composição ministerial do governo fez parte da cota pessoal da presidente Dilma. O trabalho à frente do cargo, além da ligação com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), gabaritou Noleto a continuar com a subchefia.

Um deputado do PT goiano admitiu ao Jornal Opção, sob anonimato, que o diretório da legenda em Goiás é o pior entre todos os outros. Isso pode ser uma explicação para o fato de o partido não ter conseguido emplacar ainda nenhum nome do Estado na estrutura do governo federal, nem mesmo no segundo escalão. O principal problema enfrentado pelos partidos que compõem a base de Dilma em Goiás é a pouca quantidade de parlamentares que foram eleitos.

Mandato é fundamental para os partidos negociarem as indicações. Dos 17 deputados federais por Goiás, apenas sete fazem parte da coligação que elegeu Dilma: Flávia Morais (PDT), Iris de Araújo (PMDB), Pedro Chaves (PMDB), Jovair Arantes (PTB), Marina Sant'Anna (PT), Rubens Otoni (PT) e Sandro Mabel (PR). A interferência de 7 votos em um cenário composto por 513 deputados federais é praticamente nula. No Senado, a situação é pior. Goiás, ao lado do Pará, não tem nenhum senador da ampla frente política que ajudou a eleger Dilma. No Pará, dois senadores são do PSDB e um do PSOL.

A falta de uma bancada federal maior é uma das explicações para Iris Rezende (PMDB) não ter assumido a Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco). Apadrinhado pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB) e pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), a vaga foi para Marcelo Dourado (PSB) do Distrito Federal, que nem de perto possui a força política que Iris tem. O fato é que um voto – de Rollemberg – dentre 81 no Senado, tem mais peso político que dois votos do PMDB goiano na Câmara.

O PMDB estadual, após a sinalização de que Marcelo Dourado seria nomeado na Sudeco chegou até a afirmar que o diretório estadual e Iris não tinham feito esforço para garantir a vaga. Afirmaram que a indicação ex-prefeito de Goiânia foi bancada pelo PMDB nacional. Além da questão política, Iris não ficou satisfeito de saber que a Sudeco seria criada com estrutura enxuta e que não contaria com a quantidade de recursos que havia sido prometida.

O PMDB goiano é, inclusive, o partido da bancada de Dilma que melhor tem saído nas indicações. Já conseguiu emplacar Ruy Gomide na Funasa e o ex-deputado federal Marcelo Melo na Conab. A indicação de Marcelo faz parte de um acordo feito na eleição ano passado. Como ele abriu mão de uma provável reeleição à Câmara para ser vice de Iris e assim fortalecer a candidatura na região do Entorno do Distrito Federal – onde o governador Marconi Perillo (PSDB) tem forte presença –, o PMDB goiano se comprometeu a conseguir um cargo para Marcelo no governo federal.

O deputado Sandro Mabel (PR) admite que o pequeno peso da bancada goiana no Congresso dificulta a indicação de nomes para compor o governo federal, pois as negociações geralmente são feitas conforme a quantidade de parlamentares no Congresso. “Quando se têm governador e senadores afinados com o governo federal, isso ajuda. Mas em Goiás o governo e os senadores são de partidos que fazem oposição à presidente Dilma. A falta de uma bancada forte também conta.”

Olhar provinciano

Um petista do alto escalão admite que a falta de goianos na equipe de Dilma é uma “fotografia do peso que representa a bancada federal da presidente em Goiás”. No entanto, ele minimiza o fato, pois essa reclamação é feita por todos os partidos após a composição da equipe. Quem foi pouco contemplado reclama tentando ter mais espaço e quem não levou nada chora para ver se consegue abocanhar algo. “Não tem como pensar se Goiás vai ficar fora ou não antes da montagem ministerial e dos principais cargos. Mas também não é possível definir uma cota por Estado. Essa é uma discussão que todos os Estados fazem”, explica a fonte, citando ainda o caso do Rio de Janeiro, que não possui nenhum ministro. “Não tem nenhum ministro do PT do Rio e mesmo assim não vi ninguém reclamando.”

O petista ainda considera como “olhar provinciano” o fato de a força de Goiás ser medida conforme os ministérios ocupados por políticos do Estado. “Essa forma de medir a força política dos Estados faz parte da cultura de um olhar provinciano”. Como justificativa, o petista cita algumas posições ocupadas por goianos no Congresso. A primeira vice-presidência do Senado ocupada por Marconi Perillo quando foi senador; a liderança do PR e PTB, ocupadas por Mabel e Jovair respectivamente; a presidência da Comissão de Direitos Humanos na Câmara por Pedro Wilson; e a relatoria da reforma política, por Rubens Otoni. “Isso mostra a força de Goiás e não foi discutido.”

A análise faz sentido. Mas os cargos foram ocupados por políticos que tinham mandato e articularam as indicações conforme a proporcionalidade dos partidos na Câmara. A discussão se refere ao peso das indicações de goianos no governo federal. A explicação não deixa de ser o pequeno apoio político que a bancada goiana pode oferecer a Dilma no Congresso Nacional.

A falta de prestígio político de Goiás com o governo federal é tanta que foi difícil confirmar os nomes que foram contemplados com cargos. Nem mesmo os políticos do PT sabiam informar com precisão. Ou não queriam dizer, já que a influência política é pouca. O presidente regional do PT, Valdi Camárcio, desconversou quando foi questionado. Afirmou que não estava por dentro pelo fato de as indicações serem discutidas pela bancada goiana.

Jovair Arantes, que é líder do PTB e da bancada goiana na Câmara, não foi encontrado. Os deputados estaduais do PT não atenderam nem retornaram as ligações da reportagem. No PMDB, Pedro Chaves afirmou que o partido está satisfeito com o governo federal, pois os dois pedidos do partido foram atendidos. “O PMDB foi atendido nas duas reivindicações. No caso da Sudeco, mesmo não tendo pleiteado, o diretório nacional do partido indicou o nome de Iris Rezende. Os outros nomes foram indicações da bancada e não sei como estão.”

Rubens Otoni afirma que a busca por cargos não faz parte das suas preocupações. O deputado acredita que seu prestígio político é fruto do seu trabalho como parlamentar. Um dos objetivos é buscar recursos para os municípios goianos. “Nunca fui a um ministério pedir cargo durante os nove anos de governo do PT. Mas nunca deixei de pedir obras e recursos para os municípios goianos. Acredito que se estivéssemos atrás de cargos até teríamos mais sucesso. Mas a minha preocupação é com as ações e com os recursos que consigo disponibilizar para minhas obras. É dessa forma que consigo o meu prestígio político.”

Mabel também faz coro às palavras de Rubens Otoni. Até parece que as declarações fazem parte de um script dos deputados da base do governo federal. Aliás, esse discurso é usado por todos os políticos, sempre para defender os governos a que fazem parte. “Apesar de a bancada não ter conseguido emplacar nomes no governo federal, temos um bom trânsito. Já conseguimos trazer 21 unidades de pronto atendimento (UPAs) 24 horas e o governo federal contempla Goiás com um arrojado plano de habitação. Os benefícios são muitos”, lembra Mabel, citando ainda o trabalho realizado em conjunto com o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, que é do PR, e com Juquinha das Neves.

O presidente regional do PP, deputado federal Roberto Balestra, afirma que não sabe explicar o porquê da ausência de goianos no governo federal. O PP, que apoia Dilma e hoje controla o Ministério das Cidades, com Mário Negromonte, se absteve de fazer parte da coligação eleitoral da presidente no ano passado. O partido estava dividido entre os petistas e o apoio a José Serra (PSDB). Mas Balestra confirma o conceito de que a distribuição é feita conforme o peso político dos partidos. “Quem tem condição de falar mais alto sobre os cargos são PT e PMDB, os dois partidos mais forte da base. O PP goiano não emplacou nenhum nome.”

Peso

As indicações confirmam o peso dos principais partidos da base governista. O PT é o partido que mais abocanha cargos no governo federal: nove ministérios. O PMDB vem em sequência, com seis indicações. O partido que se sai melhor nas indicações, fora as duas legendas, é o PSB, que cresceu consideravelmente na eleição passada e ofereceu um forte sustento político a Dilma no Nordeste. PR, PP, PDT e PC do B comandam uma pasta cada. E oito ministérios são chefiados por pessoas que não são filiadas a nenhum partido.

A preferência dada a alguns Estados na composição ministerial foi, é e sempre será motivo de chiadeira por quem não foi contemplado. O Paraná, após as mudanças feitas por Dilma por conta do escândalo do ex-ministro da Casa Civil Antônio Palocci comanda três ministérios: o casal Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e o último “porquinho” José Eduardo Cardozo (Justiça). Cardozo, Palocci e o ex-presidente do PT José Eduardo Dutra fizeram parte de um trio que detinha muito poder durante a campanha ano passado. A própria Dilma os nomeou como “os três porquinhos do PT”.

As indicações goianas para a equipe ministerial vinham sendo discutida durante o ano passado. Vários goianos estavam cotados para ocupar ministérios. Era perceptível o esforço que alguns políticos, mesmo sem chances, faziam para serem citados pela bolsa de apostas.

Mabel disputou o Ministério dos Transportes com Alfredo Nascimento. O órgão foi gerido pelo PR durante boa parte dos dois governos de Lula. Jovair Arantes chegou a ser contado para a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) e o Ministério do Turismo. A exemplo do PR, os dois órgãos foram ocupados por políticos do PTB durante a era Lula. O nome de Rubens Otoni foi ventilado para ser o ministro de Transportes e Cidades.

Até mesmo políticos que foram derrotados pelas urnas foram cotados para ocupar cargos de destaque no governo federal. À época, a impressão que se tinha era que o ex-deputado federal Pedro Wilson é quem escolheria o ministério que comandaria, tamanho o leque de opções ventiladas para ele: secretaria de Direitos Humanos e ministérios da Educação, Cidades, Tecnologia e Meio Ambiente. Até mesmo Iris Rezende, que perdeu a eleição para governador, teve seu nome cogitado para ocupar a Secretaria da Pesca e Aquicultura. 

Fonte: Jornal Opção/   José Cácio Júnior

 
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