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Lúcia Vânia entra em choque frontal com Marconi Perillo, acusando-o, publicamente, de tramar para el

A senadora Lúcia Vânia corre o risco de ficar sem legenda e, assim, ser alijada da disputa para o Senado. O senador Marconi Perillo, o homem que tem absoluto controle sobre o PSDB goiano, estaria inclinado a não incluir o nome de Lúcia na chapa majoritária encabeçada por ele. Foi a própria senadora quem revelou a situação. Ela indignada, irada, inconformada com o fato de estar sendo rifada, como se diz no linguajar dos políticos. Lúcia tem uma vasta folha de bons serviços prestados ao país, ao Estado de Goiás e ao seu partido, o PSDB, do qual é vice-presidente nacional. Tem sido uma parlamentar atuante e sempre se posicionado a favor das boas causas. Tem passado limpo, nunca teve seu nome envolvido em escândalos, aparece nas pesquisas de intenção de voto como favorita, ao lado de Demóstenes Torres. Tudo isso produz em Lúcia Vânia o sentimento de ser candidata natural, como se possuísse um direito subjetivo à candidatura de senadora pelo PSDB. Mas a realidade objetiva se contrapõe a esta pretensão. Sucessivas mudanças na legislação eleitoral e partidária aboliram a figura do “candidato nato”. Isso não existe mais. É a convenção partidária que forma, soberanamente, a lista de candidatos. Ocorre que no PSDB goiano, como de resto quase todos os partidos, não existe democracia interna. Um coronelismo atávico ainda domina a mente dos nossos chefes partidários. Não é uma crítica, é uma constatação. Nossas organizações partidárias – melhor seria dizer “desorganizações” -  são regidas pela vontade caprichosa do grande líder, não por seus estatutos e cartas de princípios, sendo o PT a exceção da regra. É a convenção que soberanamente escolhe os candidatos, mas também é o chefe maior do partido quem, soberanamente, determina o que a convenção deve soberanamente decidir. Caso Marconi decida que Lúcia Vânia não seja candidata ao Senado, com certeza ela não será. Mas política é jogo de força, é queda de braço. Nem sempre o comandante decide segundo seus afetos. Quase sempre a conveniência o leva a fazer concessões. Em 2002, Marconi tentou puxar o tapete de dona Lúcia. Trouxe Henrique Meirelles dos Estados Unidos para ser o candidato a senador pelo PSDB. Lúcia partiu para a briga. Sentindo-se acuada, instaurou uma crise no partido. Fez mais, tornou a crise pública. Uma crise que extrapolou para os partidos aliados. Marconi, muito a contragosto, recuou. No final das contas, foi Marconi quem ficou mal na foto. Ele voltou palavra atrás com Meirelles – que acabou saindo do PSDB para servir ao governo Lula – encorajando Lúcia Vânia a atuar cada vez mais com independência dentro do PSDB. Independência em relação a Marconi, vamos dizer assim.

Briga vem de longe

O episódio de oito anos atrás está longe de ser a causa da animosidade de Marconi em relação a Lúcia Vânia – animosidade, aliás, recíproca. As raízes descem fundo na história da redemocratização. É sempre bom relembrar o passado. Lúcia Vânia e Marconi tem origens sociais distintas. Lúcia nasceu em berço de ouro. Menina rica, ela teve educação esmerada. Filha de uma emergente burguesia comercial – sua família dominou, durante décadas, o comércio atacadista de grãos em Goiás -, cultivou hábitos requintados, tornando-se membro do creme de la creme da sociedade goiana, conferiu-lhe um status algo artistocrático. Isto fez dela uma pessoa em quem a classe, a distinção e os bons modos são uma segunda natureza. Ela é naturalmente uma dama, não afeta sofisticação, como os novos ricos fazem. Nunca precisou fazer qualquer esforço para ser aceita pelas elites do poder político e econômico. Marconi, ao contrário, veio lá de baixo da escala social. Não muito debaixo, é verdade. Apesar de possuir antepassados ilustres, descendendo da antiga aristocracia rural, o pai de Marconi era apenas um pequeno comerciante interiorano que se estabeleceu em Goiânia com muita dificuldade. Marconi ascendeu à alta sociedade pela escadaria da política, e abriu caminho a cotoveladas. Ele é aquilo que os sociólogos americanos chamam de maverick, o empreendedor ousado, agressivo e heterodoxo que rapidamente constrói fortunas e se impõe pela força do dinheiro. No caso de Marconi, sua fortuna é constituída, além do dinheiro que ele certamente tem, pelo “patrimônio eleitoral”. Ele se impôs pela força do voto. Os caminhos políticos de Marconi e Lúcia Vânia se cruzaram em l980, quando o ex-governador Irapuan Costa Júnior e sua mulher, Lúcia Vânia,  e parte de grupo irapuanista, trocaram a antiga Arena pelo PMDB. O grupo santillista, no qual Marconi já militava, caiu no xilique. Os santillistas sentiam-se chocados com o ingresso da “extrema direita” no PMDB. Henrique Santillo atacou com fúria, e ainda passou a hostilizar todos os que acolheram hospitaleiramente os recém chegados. A ironia da história é que, no final melancólico de seu governo, foi justamente o grupo de Irapuan que mais apoiou Santillo. Quando senador, Irapuan respaldou decididamente o governo Santillo. E quando os iristas romperam de vez com os santillistas, Irapuan e Lúcia Vânia deixaram o PMDB. Irapuan concluiu o seu mandato de senador e saiu da vida pública. Virou banqueiro. Quebrou. Foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios. Aposentou-se e virou jornalista. Lúcia Vânia foi eleita deputada federal e teve atuação destacada na Assembléia Nacional Constituinte. Juntou-se ao grupo de Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Defendeu idéias progressistas. Já naquele período ela foi se afastando das posições reacionárias e Irapuan, deixando para trás a imagem pouco lisongeira de “primeira dama”, e firmando a sua própria liderança. No primeira presidência de Fernando Henrique, ocupou cargos importantes na administração federal.Em 1994, ela se candidatou ao governo do Estado. Foi derrotada por Maguito Villela. Em 98, retornou à Câmara Federal.  O núcleo central do PSDB goiano é o santillismo. Vânia, contudo, nunca pertenceu a este grupo. No PSDB local, ela sempre liderou uma pequena facção, equilibrando-se entre santillistas e nionistas. Foi em l998 que as relações entre Martconi e Lúcia, que nunca foram muito boas, começaram a piorar. Lúcia disse em uma entrevista que não aprovava o nome de Marconi Perillo como candidato a governador. Pois Marconi foi candidato e Lúcia teve que engolir suas palavras. Lúcia começou a despontar como “candidata natural” dos PSDB à prefeitura de Goiânia, em 2002. Marconi fez de tudo para inviabilizá-la. Tanto fez que, no final, o PSDB não tinha mais ninguém. O próprio Marconi teve que ir atrás de Lúcia para pedir-lhe para ser candidata. Ela foi derrotada, é claro. Desde então, Lúcia Vânia passou a fazer o que quer, quando quer e como quer. No início do ano passado, ela lançou a candidatura de Ronaldo Caiado ao governo do Estado. Com qual propósito não se sabe – embora se possa supor -, mas o fato é que isso irritou profundamente os marconistas. A senadora sempre prestigiou o governo Alcides e mantém relações amistosas com o governo Lula. Quando Lula vem a Goiás, ela se instala no palanque presidencial, ao lado de Alcides. A verdade é que Lúcia tem cutucado a onça com vara muito curta. E nos meios políticos todos se assombravam com o destemor dela em desafiar tão abertamente a autoridade de Marconi dentro do PSDB. Será que ela não temia retaliações? Parece que não. Lúcia é uma mulher destituída de medo. Tem muito marmanjo por aí que não tem um pingo da coragem dela.

O caldo vai entornar

Lúcia Vânia está repetindo a mesma estratégia de oito anos atrás. Abriu uma crise dentro do PSDB. Foi para os jornais e emissoras de rádio “denunciar” a trama. Botou a boca no trombone e deu nomes aos Bois. Acusou diretamente o senador Marconi de estar manobrando para retirá-la da chapa majoritária. Ela se declara “humilhada” e “desrespeitada”. E diz que não admite ir à convenção disputar a vaga com outro postulante. Quer ser candidata a senadora, mas por “consenso”, Dirigentes do PSDB ponderam que, para fazer alianças, o partido não pode fechar a chapa majoritária de modo precipitado. De fato, Marconi ofereceu o senado para Júnior Friboi e, com a desistência deste, indicou-a para Jovair Arantes. Marconi acha que o PTB tem que esta na chapa majoritária. Seja como senador, seja como vice-governador. Outra vaga na chapa é reservada para Demóstenes Torres, caso o DEM se coligue com o PSDB. Além disso, Marconi está guardando a vice para o PP, caso os prefeitos pepistas que o apóiam consigam derrotar Alcides na convenção do partido do governador. Em suma, Some-se às conveniências do jogo de alianças a velha pinimba entre os dois, e temos um quadro em que a preterição de Lúcia Vânia é mera decorrência lógica. Mesmo que Marconi morresse de amores por Lúcia Vânia, vamos argumentar, na situação em que ele se encontra, não pode dar-se o luxo de reservar para o PSDB duas das quatro vagas na chapa majoritária. A única chance de Lúcia entrar na chapa está num eventual fracasso de Marconi em formar a coligação dos sonhos dele. Por isso é que Lúcia Vânia deve torcer para que a Frente Nova se consolide e que os marconistas não consigam vencer a convenção do PP. E torcer para que o DEM fique com Vanderlan, não com Marconi. Sem o PP e sem o DEM, Marconi terá que dar a vice e uma senatoria para o PTB de Jovair, e se contentar em ceder a outra senatoria para Lúcia Vânia. Se, contudo, Marconi obtiver êxito em suas manobras arriscadas, com certeza Lúcia Vânia será alijada do processo. Terá que se contentar em disputar a Câmara Federal. Aliás, os tucanos até torcem para isso aconteça, já que a chapa proporcional tucana anda meio baleada. O Partido corre sério risco de ter sua representação diminuída. E o rico de o PDSB perder uma senadora não deve comover Marconi. Lúcia Vânia, com um mandato, lhe causa mais problemas do que seus adversários. O que há de realmente divertido em tudo isso é que Marconi, useiro e vezeiro em imiscuir-se na vida interna dos outros partidos e de produzir conflitos internos nas demais legendas, terá uma boa crise doméstica para administrar nos próximos meses. Durma-se com um barulho desses!

Fonte: Jornal da Imprensa OnLine/ Por Helvécio Cardoso

 
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