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A curiosa demissão da semana

As venturas e desventuras de Nelson Jobim, político que nasceu para mandar e ser amigo de poderosos, até cair aos pés de Dilma Rosseuff Antônio Cruz/ABr Jobim: falou demais e teve de se demitir para não ser demitido Em dois meses, três ministros recomendados por Lula foram retirados de cena pela presidente Dilma Rousseff. Não que a intenção seja apagar no poder vestígios do ex-presidente ou de algum partido. Cada um saiu por motivo diferente, além de representar partido diverso. Agora, retira-se Nelson Jobim sem a chance de, civil, envergar farda mais uma vez. Ex-ministro da Defesa não cabe em uniforme de guerra. Saiu porque falou demais do próprio governo e partiu insatisfeito por falta de acesso mais fácil a Dilma, ele que aprecia aconselhar e conviver com quem manda. Mas a presidente não lhe deu bola, não gosta dele como muita gente em Brasília. Até tentou ser superior à presidente e, o que é pior, contou isso para outras pessoas. Tanto contou que a revista “Piauí” ouviu e publicou junto com outras falas indevidas de Jobim. Antes que a revista chegasse às bancas, Dilma conseguiu uma cópia da matéria e não gostou nem um pouco de ler uma historinha narrada pelo seu ministro da Defesa. Jobim jacta-se de seu poder de comando, conta que, ao convidar o ex-guerrilheiro e deputado petista José Genoíno a assessorá-lo no Ministério da Defesa, a presidente perguntou: “Mas será que ele pode ser útil?” Resposta do ministro na versão do próprio: “Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu.” Cacoete jobiniano antigo, o excesso de confiança. Confia tanto em seu poder pessoal, em sua ascendência intelectual que representava o PMDB num governo do PT, mas confessava em público suas intimidades no PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — o “Fernando” de tertúlias intelectuais e boêmias do ex-ministro que, no segundo caso, também convivia ao lado do copo do presidente Lula. Busca tanto o poder que, eleito deputado federal pelo PMDB gaúcho em 1986, veio para Brasília e aproximou-se do comandante do partido, Ulysses Guimarães, outro bom companheiro de copo depois do expediente, antes de ir para casa. Chegou-se tão próximo que foi eleito líder do partido na Constituinte, em 1987, apesar de deputado em primeiro mandato. Agora, sem Ulysses por perto, perde seu lugar na Esplanada dos Ministérios e o PMDB não reclamou a vaga, entregue ao diplomata Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores de Lula e dono de uma carteirinha de filiação ao PT, pelo qual pensou em ser candidato a deputado federal no ano passado. Antes de Jobim, saiu da foto ministerial Alfredo Nascimento, há menos de um mês, por causa da corrupção envolvendo o PR no Ministério dos Transportes. Antes ainda, Antonio Palocci perdeu a chefia da Casa Civil por enriquecimento suspeito, mas o PT manteve a vaga com Gleisi Hoffmann. Falou demais, “Piauí” ouviu Entre as falas captadas pela revista, Nelson Jobim, compara sua convivência com os dois antecessores de Dilma. Fernando Henrique e Lula? Ambos sedutores, com maneiras diferentes: “O Lula diz palavrão, o Fernando é um lorde.” O governo Dilma? “É muita trapalhada” quanto à negociação sobre o sigilo de documentos históricos do Estado. E a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti? “É muito fraquinha”. E a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann? “Nem sequer conhece Brasília” — sobretudo no trânsito político. As duas ministras estavam empossadas há pouco quando Jobim falou demais há coisa de um mês, mas que demorou a chegar ao público porque as revista é mensal. Com essa demora na divulgação, o ministro ganhou sobrevida de algumas semanas no poder, o suficiente para aprontar outras. “É irrelevante”, classificou Gleisi Hoffmann a opinião de Jobim a seu respeito. As últimas declarações de Jobim foram “desnecessárias”, na opinião de Ideli. O presidente do Senado, José Sarney, brincou com o comentário de que as ministra é fraquinha: “A expressão não combina com a ministra porque ela é até bem gordinha.” Sarney simulou tentar livrar a cara de Jobim: “É um homem muito experiente, muito equilibrado. Jamais faria qualquer comentário que pudesse atingir as pessoas ou o governo.” Mais tarde, o senador telefonou à ministra e tentou-se corrigir: disse que não falou “gordinha”, mas “fofinha”. (A.C.S) Ética? Só para os outros Se a revista, mensal, veio às bancas apenas neste fim de semana, como Dilma obteve antes uma cópia da matéria, que usou como prova para demitir rispidamente o ministro da Defesa? Se as frases de Jobim foram captadas há um mês, por que a presidente não soube antes que foram ditas? Se Dilma Rousseff não soube antes, Nelson Jobim não contou. Aí, é um problema entre os dois, servidores do Estado. Pontos para a revista, que preparava a publicação, mas não comentou, até o momento em que lhe convinha aquecer a chegada às bancas com a liberação a jornal de alguns trechos. Aí, “Piauí” escolheu a “Folha de S.Paulo” para publicar algumas notas, na quinta-feira, na coluna de Mônica Bergamo. A revista tinha o direito de escolher o canal e de liberar algo. Na véspera das notas, o Planalto soube que algo envolvendo Jobim e colegas de governo estava a caminho na “Piauí”. Coube ao palácio ir atrás do texto completo para informar à presidente. O natural seria que a tarefa coubesse à secretária de Comunicação Social, Helena Chagas, jornalista conhecida de todos os envolvidos na operação, procurar a revista para pedir o adiantamento informal da matéria. Pelo que se soube na presidência, Helena foi o caminho. No entanto, o jornal “O Globo” publicou nota em coluna, na sexta-feira, informando que o contato com a revista foi feito pelo secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Aí surgem algumas dúvidas morais. A revista poderia ceder à Presidência um texto integral antes que a edição estivesse nas bancas à disposição de todo o público? Por que Carvalho assumiria uma tarefa da colega Helena? Fosse qual fosse o canal, havia interesse público em se informar a respeito. Mas teria “O Globo” algum interesse especial em penetrar nessa questão de canal? É possível. Em 2006, Helena trabalhava no mesmo jornal quando surgiram as denúncias na imprensa de que em sua vizinhança, no Lago Sul, havia uma casa que servia de abrigo à República de Ribeirão Preto, grupo de amigos do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que seria um dos frequentadores do endereço. Quem seria o informante? O caseiro de Helena comunicou à patroa que um colega da redondeza recebera recentemente uma boa grana via depósito na Caixa Econômica Federal. O caseiro chamava-se Francenildo dos Santos Costa. A notícia chegou a Palocci, que quebrou ilegalmente o sigilo fiscal de Francenildo e então confirmou a existência do depósito. Concluiu-se no governo que o caseiro espionava a República de Ribeirão Preto em troca daquele dinheiro. Com o tempo, Francenildo provou a origem do depósito: vinha de seu pai fora do casamento em troca da desistência de uma investigação de paternidade. “O Globo” soube que a informante de Palocci quanto ao caseiro foi Helena e a demitiu. Sobrou rancor. (A.C.S) A cadeia de trapalhadas de Jobim Nessa cadeia de acontecimentos no centro e na periferia da demissão de Nelson Jobim, surge a evidência de que o então ministro estava mesmo deslocado no governo Dilma. Não é nada, não é nada ele exibiu em público um comportamento desconhecido no tempo em que serviu ao amigo Lula. Lembre-se que o presidente tentou usar Jobim como ponto de ocupação do PMDB. Vencia mais um mandato de Michel Temer na presidência do partido, e o petista Lula sacou ser aquela a oportunidade de deslocar o então deputado e introduzir Jobim no lugar. A operação não deu certo. Com o advento do PSDB, Jobim passou a ser uma espécie de estranho no ninho do PMDB, onde não encontrou força suficiente para derrotar Temer. Desistiu no meio do caminho. Hoje, Michel Temer é presidente licenciado do PMDB e vice-presidente da República no governo Dilma, do qual o outro foi deslocado depois de apenas sete meses de convivência. Em pouco mais de um mês, três trapalhadas sucessivas desestabilizaram a presença de Jobim na Esplanada até chegar agora o golpe final. A primeira em 30 de junho, quando o Senado se reuniu em homenagem aos 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique, de quem foi ministro da Justiça. Como convidado, o ministro discursou. “Nunca o presidente levantou a voz para ninguém”, Jobim evocou aquele tempo em que o presidente, segundo o ministro, nunca criou tensão na equipe. Mais adiante mencionou Nelson Rodrigues: “Ele dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia.” Nos dias seguintes Jobim alegou que a menção a idiotas não se referia ao governo Dilma, mas a jornalistas. A segunda em 27 de junho. A “Folha” publicou entrevista onde Jobim confessou o que muitos já sabiam em Brasília: "Eu votei no Serra". Na eleição presidencial há quase um ano, preferiu o tucano José Serra à petista Dilma, embora já fosse ministro da Defesa nomeado por Lula. Acrescentou que, se Serra fosse eleito, faria a mesma coisa que hoje Dilma emprega no trato das crises políticas, como a faxina na corrupção no Ministério dos Transportes. Renovaram-se as ondas no governo pela demissão do ministro, que saiu a se explicar. No movimento das ondas surgiu um subcapítulo naquele episódio da novela. Na última segunda-feira, nova escorregada por excesso de apego ao cargo. Em entrevista na televisão ao programa “Roda Viva”, o ministro derramou-se em loas a Dilma para recuperar sua imagem no governo. Depois, foi a Tabatinga na excursão que incluiu o vice Temer e outros ministros — uma bela oportunidade que poderia aproveitar para usar pela última vez, e ser fotografado, aquele uniforme militar de campanha na selva. Estava por lá quando o Planalto trepidou com o noticiário sobre a “Piauí”. Recebeu um telefonema bravo da chefa, que o intimou a voltar já para Brasília e pedir demissão para não ser demitido. Não voltou já, permaneceu em Tabatinga com esperança de seguir com o grupo a Letícia, na Colômbia. Veio a segunda ordem: que retornasse imediatamente. Retornou e trouxe pronta a carta de demissão. Redigida no avião. (A. C. Scartezini) Ecos da ditadura Encerrou-se a era Jobim na Defesa sem que houvesse repercussão quanto à denúncia da presença militar na ciranda de contratos suspeitos nos Transportes. Nem o ministro falastrão comentou o caso - e não foi por falta de tempo. O novo ministro Celso Amorim pega o trem andando. Pelo menos por enquanto, ele não deve saber de nada mesmo. Sob o discreto silêncio da concorrência, a “Folha de S.Paulo” publicou em manchete, no domingo anterior, que o Comando do Exército, representante máximo da força na estrutura do Ministério da Defesa, está na linha de tiro da Procuradoria-Geral de Justiça Militar por causa de suspeita de fraudes em 88 licitações feitas por militares para o Ministério dos Transportes. A suspeita nas obras inclui oito generais, entre eles o atual comandante do Exército, Enzo Martins Peri, quando chefiou o Departamento de Engenharia e Construção (DEC) entre 2003 e 2007, de onde se retirou para assumir o atual Comando, sempre no governo Lula. O Exército, com o DEC e o Instituto Militar de Engenharia (IME), é parceiro do malfalado Dnit em construções que somam investimentos de R$ 2,3 bilhões, dos quais R$ 11 milhões seriam desvios de dinheiro público nas licitações. O cálculo e a desconfiança foram levantados por engenheiros e contadores que participam do inquérito sob o comando da promotora Ione de Souza Cruz, do Ministério Público Militar e que responde à procuradora-geral de Justiça Militar, Cláudia Moreira Luz, à frente do processo desde maio. Além do comandante Enzo, envolvem-se no caso os generais Marius Luiz Teixeira e Ítalo Fortes Avena, antigos chefes do DEC. Os outros cinco generais chefiaram o IME entre 2004 e 2009: Rubens Brochado, Silvino Silva, Ernesto Ronzani, Emilio Aconcella e Amir Kuban. Segundo os promotores, o coronel Paulo Roberto Dias Morales e o major Washington Luiz de Paula organizavam os grupos de empresários que concorriam nas licitações, entre eles os vencedores de concorrências suspeitas. Em depoimento no processo, ambos negaram participar de irregularidades. Por ironia, enquanto há o inquérito que envolve oito generais, a presidente Dilma aba de designar um nono para dirigir o Dnit que saiu dos trilhos pilotados por civis do PR. Agora, cabe ao general Jorge Ernesto Pinto Fraxe recolocar a máquina no lugar. Se a m missão Fraxe é aplicar a linha dura no Departamento, terá a companhia no segundo posto hierárquico de um civil dedicado a auditoria e controle de contas: o diretor-executivo será Tarcísio Gomes de Freitas, auditor da Controladoria Geral da União (CGU). (A.C.S) Fonte:Jornal Opção// A. C. Scartezini
 
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