Pirenópolis recebe mostra cinematográfica sobre tradições culinárias
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| Cena de O mineiro e o queijo: o documentário do cineasta Helvécio Ratton terá pré-estreia nacional no festival de Pirenópolis |
A gastronomia, desde a produção até o consumo de alimentos, é parte crucial da cultura de uma sociedade. É impossível dissociar a imagem do queijo, por exemplo, de Minas Gerais. Ou ouvir falar em cerveja e não lembrar de qualquer lugar do Brasil em um dia de sol. É exatamente essa relação entre cultura e alimentos, permeada por discussões políticas, que será tratada na segunda edição do Slow Filme — Festival Internacional de Cinema e Alimentação, que ocorre em Pirenópolis (GO) de 15 a 18 de setembro. Na edição deste ano, o foco do evento é mostrar que queijos e cervejas artesanais de ótima qualidade, com status gourmet, podem sim ser produzidos no Brasil.
O festival exibirá, no Cine Pireneus, 18 filmes, entre longas, médias e curtas de ficção e documentários, de diferentes países. As produções, selecionadas pelo professor de cinema, crítico e cineasta Sérgio Moriconi, falam sobre tradições culinárias, mas também abordam o problema da falta de comida e o conceito de sustentabilidade. São documentários e obras de ficção do Brasil, Itália, França, Irã, Líbia, Suécia, Hungria, Índia, Chile e Estados Unidos que poderão ser vistos ao longo de quatro dias de programação. Para Moriconi, todo o contexto em torno das comidas e bebidas estão relacionados com o movimento slow food, que pretende incentivar os costumes culinários regionais e o consumo de produtos locais.
O destaque do evento será a pré-estreia nacional do documentário O mineiro e o queijo, do cineasta Helvécio Ratton, que fala sobre a fabricação, o consumo e a distribuição do famoso queijo de minas artesanal — mais especificamente os fabricados na Serra da Canastra, na região do Serro e do Alto Paranaíba, em pequenas queijarias familiares. “Esse é um longa político e poético”, afirma Ratton, que, inicialmente, pensou em fazer a obra com uma abordagem mais cultural, sobre a relação desse alimento com as tradições de Minas Gerais.
“Mas, ao longo da pesquisa para o filme, vi que onde havia tradição, também havia contradição”, ressalta. O cineasta explica que, desde que o queijo de minas artesanal, feito com leite cru, tornou-se patrimônio nacional, em 2008, ele foi impedido de ser comercializado fora do estado onde é produzido. Ele questiona a legislação que proíbe a circulação do queijo nos outros estados brasileiros e permite apenas a exportação daqueles feitos com leite pasteurizado.
Essa indagação é compartilhada pelo produtor de leite, café e queijo de minas João Carlos Leite, 46 anos. O produtor ressalta que o queijo feito de leite cru tem sabor único, de acordo com a região em que é produzido. “Isso é o que os franceses denominam terroir, a união das condições de clima, solo, vegetação, alimentação, conjunto de fatores de determinada região que confere ao queijo um sabor específico, já que não existem regiões iguais no mundo”, explica. Leite assegura que o Brasil produz queijos especiais, a ponto de degustadores europeus considerarem o Canastra Real como um dos melhores tipos produzidos ao redor do mundo. Quem prestigiar o evento terá a oportunidade de conversar com Ratton sobre o filme e degustar queijos de Minas Gerais como os fabricados em Cruzília, Serra do Salitre e Serro.
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| Marco Falcone fará palestra sobre a produção artesanal de cervejas |
Debates
Além da exibição gratuita de filmes, haverá palestras com especialistas, visitas a feiras e fazendas da região, oficinas sensoriais e degustação de produtos orgânicos e artesanais. Uma das palestras será ministrada pelo mestre cervejeiro Marco Falcone, dono da Cervejaria Falke Bier, de Ribeirão das Neves (MG). Falcone falará da relação entre a cerveja e a humanidade após a apresentação de dois filmes que tratam da produção artesanal de uma das bebidas mais populares no Brasil.
A obra Cerveja falada — de Guto Lima, Demétrio Panarotto e Luiz Henrique Cudo — mostra a história do mais antigo ceverjeiro do país, Rupprecht Loeffler. Já História da cerveja em Santa Catarina, dirigida por Andreas Peter, mostra histórias curiosas de microcervejarias no estado catarinense e inspirou a criação de Cerveja falada.
O cervejeiro de Minas Gerais vai comentar sobre as pessoas que produzem cerveja na panela do fogão de casa (homebrewers), como ele fazia ente 1988 e 1989. “Eu trabalhava naquela época como engenheiro elétrico, mas tinha paixão pela cerveja diferenciada”, relata. “A empresa em que eu trabalhava me mandou para Hanover, na Alemanha. Lá, percebi que a cerveja que eu fabricava no Brasil era boa e passei a me aprofundar nesse processo”, recorda Falcone. Ele abriu sua cervejaria em 2004, com a ideia de integrá-la ao movimento slow beer, que valoriza a qualidade do produto artesanal, em vez da quantidade. Ao fim da conversa com Falcone, os espectadores poderão provar algumas marcas de cerveja artesanal brasileiras.
De acordo com o Sérgio Moriconi, o projeto de fazer o Slow Filme surgiu quando ele conheceu o festival italiano Slow Food on Film. “Pensei em trazer isso para cá. A ideia de fazer a mostra de filmes em Pirenópolis se deu porque um festival desse tem muito mais a ver com uma cidade com cultura forte em relação a hábitos alimentares do que com uma cidade grande”, justifica o curador.
A diferença entre a mostra do ano passado para a segunda edição do Slow Filme é que as obras “vão além da comida em si”. “Alguns dos filmes são mais políticos, do ponto de vista da relação entre a agroindústria e o pequeno produtor. Procurei criações ligadas à agricultura sustentável e ao modo de vida mais saudável “, acrescenta.
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JANTAR BENEFICENTE
A rede de restaurantes Dom Francisco oferecerá, durante o evento, um jantar beneficente cuja renda será revertida para a participação de produtores no 1º Seminário de Queijos Artesanais do Brasil, que ocorre em Fortaleza, entre os dias 16 e 18 de novembro. O chef Francisco Ansiliero vai preparar uma entrada, dois pratos e uma sobremesa com ingredientes da gastronomia regional brasileira, ligados ao conceito do slow food. Entre os pratos, estão a salada de bacalhau com feijão-manteiguinha de Santarém, salsão, erva-doce, alho-poró e tomate italiano; e o lombo de pirarucu ao leite de castanha com mousseline de cará (foto), que une a cultura da região amazônica com a do cerrado.
Fonte: www.correiobraziliense.com.br/ Thais de Luna
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