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“Na política, ou você se recicla ou morre”

Fundador e presidente do PSD em Goiás, o chefe da Casa Civil do governo estadual ironiza os conceitos de esquerda e direita no Brasil e se diz pronto para novo recomeço na vida política


Fernando Leite/Jornal Opção

Antes do início formal da entrevista ao Jornal Opção, Vilmar Rocha quebra o protocolo. Tira do bolso do paletó uma folha de papel. Nela, a letra da canção “Começar de Novo”, de Ivan Lins. Cantarola (desafinado, meio roufenho), então, o que está escrito: “Começar de novo/ e contar comigo/ vai valer a pena ter amanhecido/ ter me rebelado, ter me debatido/ ter me machucado, ter sobrevivido/ ter virado a mesa, ter me conhecido/ ter virado o barco, ter me socorrido.” O texto tem tudo a ver com o momento vivido pelo deputado federal licenciado e atual secretário-chefe da Casa Civil do governo estadual. Ele é fundador e o dirigente-mor do PSD em Goiás, um partido que nasce já como uma das quatro maiores forças políticas do Estado — em números, somente atrás de PSDB e PMDB e rivalizando com o PT.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, ele vive um “começar de novo” bem semelhante ao de 26 anos atrás, quando foi um dos implantadores do Partido da Frente Liberal, o PFL. “O que fiz aos 34 anos estou voltando a fazer agora, aos 60”, declara, sempre demonstrando grande entusiasmo com a nova-velha experiência de encabeçar a construção de uma sigla.

Veterano de cinco mandatos como parlamentar, Vilmar não foge do debate sobre a constituição do PSD, um partido que nasce grande, mas sem estatuto, sem programa e sem ideologia. “Vamos construir isso tudo juntos.” Contesta a visão tradicional de direita-centro-esquerda na política, mas coloca seu novo partido no espectro: “O PSD é de centro. Não dá para ser extremista na sociedade e na política brasileira.” Mesmo em plena fase de captar bons quadros para o partido — especialmente de partidos adversários do governo, como o PMDB —, o peessedista avisa que toda convivência partidária tem seu preço: “Rio não enche só com água limpa.” E diz qual seu grande desejo como político: “Quero ser senador.”

Euler de França Belém — Por que trocar o DEM pelo PSD? Qual a motivação principal?

Vocês sabem que há muito tempo há uma divergência interna no DEM muito forte. Isso estava dificultando espaço para desenvolver meu espaço político. Creio que essa seja a motivação de muitos outros que estão saindo de seus partidos.

De forma geral, há uma oligarquização das estruturas partidárias no Brasil: ou há uma pessoa ou há um pequeno grupo dominando os partidos. Isso se deve à lei que criou os partidos, de 1975, que deu muita autonomia internas a eles; se as cúpulas têm o poder, tomam decisões absurdas e não há como mudar. Isso ocorre de maneira geral no sistema partidário. Então, as pessoas que querem desenvolver seus projetos políticos, precisam estar em partidos que tenham uma democracia interna maior. Essa foi uma motivação que eu tive. No caso do DEM, sempre brinco que eu era do PFL e que o PFL cumpriu seu papel em três missões: primeiro, a transição política da ditadura para a democracia; segundo, na Constituição de 1988; e o terceiro, nas reformas do período FHC.

Herbert de Moraes Ribeiro — Quando é que o PFL se transformou em um partido de aluguel?

Na mudança infeliz de PFL para DEM, acho que politicamente isso não foi bom; e depois que um pequeno grupo, radical, ocupou o comando do partido em nível nacional. Aí ele perdeu sua finalidade e esgotou sua proposta.

Cezar Santos — O sr. diria que estava se sentindo sufocado no partido? E vamos dar nome aos bois, quem estava causando isso?

Não, não quero dar nome aos bois porque não gosto de “fulanizar” isso. Já disse que, em tese, as estruturas partidárias são oligarquizadas e tem alguém que as domina, não é só o caso do DEM. E aí tem um desafio que quero que depois vocês me cobrem: queremos fazer um partido com uma democracia interna bem maior. Por exemplo, na primeira reunião da executiva nacional com os presidentes regionais, foi votada uma resolução segundo a qual os diretórios regionais têm total liberdade para definir as alianças para 2014. E aqui no Estado nós vamos também dar liberdade para que os diretórios municipais definam isso. Não haverá intervenção.

Cezar Santos — O PSD vai ter um estatuto mais avançado do que os dos partidos atuais?

Mais do que ter um estatuto assim, vamos exercitar ao máximo isso que eu disse: exercitar a democracia interna, ou seja, respeitar a decisão das instâncias partidárias e a posição dos militantes. Por exemplo, se alguém amanhã quiser deixar o partido, a posição hoje é de não cobrar na Justiça a saída daquele militante, se ele tiver mandato. Vamos dar liberdade. Quem quiser ficar fica, quem quiser sair sai.

Euler de França Belém — O sr. saiu de um partido que tinha posições políticas e ideológicas bem definidas, o DEM, que pode ser considerado o oposto do PT. Essa decisão de não tomar o mandato é uma decisão de uma sigla tradicional. O sr. não acha que está formando um partido absolutamente tradicional?

Eu tenho dito que o PSD não é um partido a mais na política brasileira, na medida em que é um partido grande, tanto em nível estadual como em nível nacional. E sua criação é o único fato político-partidário relevante que ocorreu desde a eleição de 2010, com a eleição de Dilma Rousseff. Agora, qual vai ser o papel do PSD daqui para a frente, isso nós vamos ver. Daqui a algum tempo podemos discutir isso e cobrar.

Euler de França Belém — Mas o PSD nasce de um líder político invertebrado, Gilberto Kassab [prefeito de São Paulo]. Ele é uma pessoa difícil de definir, não tem nada de moderno ou avançado nele.

Kassab pode não ser um doutrinador, mas é um excepcional operador político. Hoje é uma figura nacional, politicamente importante. Como nosso tempo era curto para estruturar o partido, a prioridade inicial era formar o partido para que ele pudesse disputar as eleições de 2012. Em seis meses, fizemos toda a articulação política e esse trabalho jurídico. É um tempo muito curto. Combinei com o deputado Afif Domingos (SP) que a partir do momento do registro vamos fazer 23 eventos pelo Brasil e definir o que chamamos de um eixo programático para o PSD. Você pode dizer que todos os partidos têm estatutos bons, modernos etc, mas todos são iguais. Você sabe por quê? Porque há a infidelidade dos partidos com relação a seus próprios estatutos. Uma coisa diferente talvez seja fazer um estatuto e cumpri-lo. Pode parecer algo pequeno, mas é diferente. Algo que devemos bater com muita força é a questão do voto distrital no Brasil.

Herbert de Moraes Ribeiro — Vocês vão defender essa tese?

Vamos defender essa tese. É a maneira mais fácil de aproximar o representante do representado. Há desvantagens? Há, mas no atual quadro, para recuperar um pouco essa proximidade e haver uma ligação e um controle por parte do eleitor, cremos que o voto distrital pode contribuir para isso. Vamos agora, então, tentar construir um eixo programático.

Elder Dias — E a frase de Gilberto Kassab, sobre o partido não ser nem de direita nem de centro nem de esquerda?

Fora o desabafo dele naquela circunstância em que fez a declaração, o que há e todo mundo sabe é que um partido no Brasil, para ser relevante e ter poder de influenciar, tem de ser um partido de centro. Não dá para ser extremista na sociedade brasileira. O DEM se continuar nessa toada, pode acabar virando o PSTU da direita, um partido radical, raivoso e irrelevante. O que eu quero dizer com isso é que um partido no Brasil precisa ser de centro. Claro que existem direita, esquerda, isso pode ser conceituado. Mas, vamos raciocionar: o PC do B é de direita ou de esquerda?

Euler de França Belém — De esquerda.

Mas o maior líder do PC do B no Brasil, o deputado federal Aldo Rebelo (SP), meu amigo, defendeu o Código Florestal, que era uma tese da direita. Getúlio Vargas ficou com pinta de esquerda, mas presidiu durante 15 anos um regime fascista no Brasil.

Euler de França Belém — E seu partido? Nasce e ninguém sabe o que ele é.

É de centro, claro que é. Estou desenvolvendo essa argumentação para dizer exatamente isso, que é um partido de centro.

Euler de França Belém — Um cientista político, dos mais consagrados do Brasil, fala que, quando um partido não quer se definir ideologicamente, diz que é de centro.

Não concordo, existe um centro, sim.

Euler de França Belém — Na visão geral, o PSD nasce aliado ao governo Dilma, com algumas restrições regionais.

O partido não participou da eleição de 2010, portanto não se posicionou; seus integrantes, candidatos e parlamentares, como eu, participaram e se posicionaram. Até 2014, o PSD vai respeitar isso e então tomará uma posição. Você pode dizer que, então, o partido está vivendo uma ambiguidade. Eu respondo: está vivendo uma ambiguidade, sim, em termos de um posicionamento em relação ao governo federal. Vamos conviver com isso. O que o partido fez foi liberar: quem quiser votar com a oposição ou com o governo, podem votar. Vamos respeitar os compromissos que cada um assumiu em 2010. Mas quero agora, neste fórum qualificado, questionar: politicamente estamos estruturados para ser ou governo ou oposição. Mas existe espaço, hoje, para ser um parlamentar independente? E o que é ser independente? É votar a favor no que considerar certo e votar contra o que achar errado. Será que isso é possível no Brasil?

Cezar Santos — O discurso geral dos partidos é assim.

Não, pelo contrário, o discurso sempre foi estruturado entre governo e oposição. Depois do colégio eleitoral, o PT expulsou três deputados federais que votaram a favor de Tancredo Neves; o PT não assinou a Constituição de 1988; o PT ficou contra o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Fundef, tudo porque era de oposição. Isso está certo? Nós todos temos a nossa cabeça assim: quem apoia o governo é governista, adesista, quer um interesse político-pessoal. Mas será que não há espaço para votar a favor pelo interesse da sociedade? Acho que temos de fazer esse desafio, sem ficar temeroso de patrulhas. Vou questionar vocês aqui: o governo da Dilma é o mesmo perfil do governo do Lula? Claro que não é! (enfático) Na política externa, no combate à corrupção, por exemplo, o governo não está muito mais preocupado com mudanças mais estruturais do que aquele palavrório, aquele falatório, aquela demagogia, aquele populismo de Lula? O tempo e a história vão pôr Lula em seu devido lugar. Ele teve sua importância política, foi bom que ele chegasse à Presidência. Mas não considero que seja o começo de um ciclo, mas o fim: completou-se o período de transição da democracia brasileira, permitindo-se que alguém semianalfabeto, popular e de um partido de esquerda governasse por oito anos, sem nenhuma ruptura institucional. Então, o ciclo da estabilização democrática no Brasil se completou; agora vamos começar um novo ciclo.

Herbert de Moraes Ribeiro — Gostaria de saber qual é esse ciclo. Está começando com Dilma?

Não está nítido ainda, o ciclo está em formação. Está começando agora, com a participação da Dilma, não exatamente por causa exatamente dela.

Euler de França Belém — A presidente não tem entusiasmo com Hugo Chávez, não quer controlar a imprensa — ao contrário do PT. Podemos dizer que Dilma Rousseff rompe com o populismo?

Acho que sim. Até agora suas ações não tem o conteúdo populista do governo Lula. Dilma não faz uma exploração midiática nem de sua figura nem de ações assistencialistas. A demagogia é apresentar soluções ilusórias à sociedade. Havia uma estratégia, usada pelos áulicos no regime monárquico, que era bajular o rei como forma de manipulá-lo, para que ele agisse pensando nos áulicos e não no povo. No caso da demagogia, o governante passa a cortejar o povo, manipulando-o, com promessas inconsistentes. Sempre disse que Lula tinha um DNA e uma ação populista. Só que seu populismo não desabrochou, porque não havia condições políticas para isso. Nossas instituições são estáveis, temos um Legislativo e um Judiciário independentes, uma mídia igualmente autônoma e um empresariado diversificado. A grande prova disso foi ele não ter conseguido o terceiro mandato. Leonel Brizola [político socialista, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro] diria, em uma expressão gaúcha, que Lula “arrostou o alambrado”. Arrostar é quando o animal fica correndo na cerca, pra lá e pra cá, querendo pular, mas não pula. Lula não deu esse passo para alterar as regras e ter um terceiro mandato não porque não quisesse, mas porque não havia condições político-institucionais para fazer isso. Há determinados fatos na vida política que são simbólicos. Para ilustrar essa situação do ex-presidente, isso ocorreu quando o jornalista Larry Rohter, do “New York Times”, fez aquela reportagem dizendo que Lula bebia demais. Todo mundo sabia disso, não era novidade nenhuma. O próprio Brizola falou para Lula, que ficava impressionado com o tanto que ele bebia. Lula, então, baixou um ato cassando o visto de permanência dele no Brasil. O que a Justiça fez? Cassou a decisão de Lula

Cezar Santos — Isso mostra o viés autoritário do governo Lula.

Claro, isso está no DNA de Lula: autoritário e populista. Mas o que eu quero ressaltar é o fato de a Justiça cassar uma decisão abusiva do presidente da República. Isso foi um símbolo.

“Goiás não é um Estado petista”

Herbert de Moraes Ribeiro — Dizem que o PSD está sendo incentivado pela presidente Dilma. O novo partido seria uma alternativa para reduzir o poder absoluto do PMDB. O PSD surgiu também com esse objetivo?

A percepção pode ser essa mesmo, mas não acho que o PDS surgiu incentivado pela presidente para ocupar esse espaço. Pode ser até que venha a ocupá-lo, mas não foi criado para isso. A motivação maior é a busca de espaço político por parte de uma série de lideranças nacionais e regionais, insatisfeitas em outras siglas. Havia essa lacuna e Kassab percebeu isso e provou sua habilidade política. Vamos pegar meu próprio exemplo: todos sabem que eu vinha havia muito tempo insatisfeito em meu partido. Então, o surgimento do PSD vem muito mais nesse sentido do que por conta de um incentivo ou uma estratégia do governo federal. A mesma coisa pode-se dizer, por exemplo, do deputado Thiago Peixoto.

Elder Dias — O deputado Armando Vergílio era presidente estadual do PMN. Então ele também estava insatisfeito com o PMN?

Não sei. No caso específico dele, talvez ele quisesse estar em um partido maior, porque é muito difícil fazer um trabalho político em uma sigla muito pequena. Pode haver outras razões também. Mas, completando a resposta, não acredito que o partido surgiu por outros incentivos. Até porque a decisão pela fidelidade partidária no Brasil chegou por uma sentença judicial que apareceu de uma hora para outra e engessou o sistema partidário. É como se você pegasse uma casa com pessoas em movimento e, de repente a congelasse: fica um sentado, outro em pé, outro torto etc.

Elder Dias — O sr. acha que o PSD teria essa força com que está nascendo, não fosse a lei da fidelidade partidária?

Acho que não. A lei represou uma reorganização da vida político-partidária. Com essa hipótese, de um novo partido, todos querem se reorganizar. Portanto, a motivação é mais essa do que um estímulo de governo.

Herbert de Moraes Ribeiro — Gilberto Kassab, segundo informações que temos, quer ser ministro do governo.

Vamos ter de aguardar, primeiramente, a organização final do partido. Depois, as eleições municipais de 2012. Só a partir daí haverá uma nitidez maior do cenário político no Brasil em relação a 2014. Vou dar um exemplo de como isso pode ser ambíguo: estive conversando esses dias com o próprio Kassab e ele me disse que, se José Serra for candidato a prefeito em São Paulo, ele vai apoiá-lo, a não ser que o PSD lance candidato próprio. Não há previsão de aliança, na capital paulista, do PSD com o PT.

Herbert de Moraes Ribeiro — Como foi o convite de Kassab ao governador Marconi Perillo para se filiar ao PSD e ser candidato a presidente da República?

Você está me dando uma notícia nova, houve esse convite? (risos) Para filiar sim [houve o convite], mesmo porque, quando se está formando um partido, é claro que se convidam todos.

Euler de França Belém — Só para esclarecer, o convite foi feito dentro do Palácio das Esmeraldas.

Herbert de Moraes Ribeiro — Como fica o fato de o governador incentivar, ou pelo menos permitir o sr., como secretário da Casa Civil, dentro do Palácio, estruturar um partido que, de certa forma, não vai ser aliado do PSDB. O que leva o governador a permitir isso?

O governador é simpático à formação do PSD, porque sabe que havia uma dispersão das forças que sustentam o governo estadual. Havia uma vontade de rearticulação. O PSD é a possibilidade de todos terem um partido mais estruturado e mais estável, inclusive para ser um ponto de apoio do grupo que está no poder em Goiás, no qual eu me incluo. A maior parte dos filiados do PSD está vindo do PMDB, do PR, dos pequenos partidos, de pessoas que foram eleitas por circunstâncias políticas que não existem mais. Vamos ter um partido muito mais forte para sustentar o governo.

Euler de França Belém — O sr. quer dizer que o PSD vai ajudar o governo a chegar a 2014 com uma frente política bem maior?

Sim, claro. Tem como dizer que a existência do PSD não foi importante para facilitar, por exemplo, a vinda dos deputados Thiago Peixoto e Francisco Júnior, dois dos quadros mais qualitativos do PMDB, para a base do governo? Portanto, é uma estratégia política legítima e visível nossa e do governo, de enfraquecer o adversário e fortalecer nossa base política.

Herbert de Moraes Ribeiro — Quais são os adversários?

O PMDB e o PT.

Herbert de Moraes Ribeiro — E o DEM?

O DEM, não. (enfático)

Herbert de Moraes Ribeiro — O sr. fez críticas contundentes ao DEM.

Participei do PFL e do DEM, sobretudo do PFL e cumpri o meu papel. O que estou fazendo críticas políticas. E o que eu disse é que não há espaço, em um país como o nosso, para partidos radicais. Aqui em Goiás os nossos adversários serão PT e PMDB. Com o PSD estamos fazendo uma reciclagem da base política que temos. Por exemplo, em Goiânia, o que vemos, em nossa avaliação, é que há uma candidatura consolidada do prefeito Paulo Garcia (PT), com um vice do PMDB. E nós, da base aliada? Ainda temos de amadurecer uma decisão política, estratégica, que ainda não tomamos: é a de, diante desse quadro político, lançar uma candidatura única ou lançar três ou quatro nomes para fazer uma aliança no segundo turno. Essa decisão política não foi tomada ainda, nem pelo governo nem pelo PSD.

Herbert de Moraes Ribeiro — Há um esvaziamento efetivo do DEM. Isso não vai provocar um choque entre as oligarquias dos partidos, como o sr. define, em relação ao governador?

Não há nenhuma ação deliberada para esvaziar este ou aquele partido, não. Mas há pessoas que mudam porque estão insatisfeitas, um processo natural de acomodação. O que estamos fazendo, e eu citei, é a ação sobre a estrutura dos adversários, que é uma ação legítima. O PMDB é um partido estruturado no Estado e a maioria dos prefeitos que vieram para o PSD veio dele e do PR.

Herbert de Moraes Ribeiro — O sr. conseguiu atrair alguém do PT para o PSD?

Em nível estadual, não, mas em nível municipal, sim. Há um vice-prefeito do partido que vai se filiar ao nosso. O PT é muito frágil em suas bases municipais, tem pouca representatividade Goiás não é um Estado petista. Em Goiânia, o partido tem o prefeito por um caso circunstancial; em Anápolis, é diferente, o prefeito foi eleito. Mas temos 246 municípios e não deve haver dez prefeitos do PT. O partido está há tantos anos no poder federal e aqui só elegeu um deputado federal [Rubens Otoni], agora têm dois [Marina Sant’Anna assumiu na vaga do licenciado Thiago Peixoto].

Elder Dias — Essa ação de atrair nomes é bem diferente, então, da que Marconi Perillo executou para esvaziar o então PFL?

Aquilo se deu em outra circunstância, em função de certas contingências. Mas é página virada, coisa do passado.

Cezar Santos — O sr. diz que não quer “fulanizar” a questão, mas o deputado Ronaldo Caiado fez uma provocação pública, digitando [no Twitter] um cifrão em vez do “S” da sigla do PSD, deixando a entender que o novo partido é comprado. Como o sr. avalia essa declaração?

Injusta e politicamente inconsequente. (repetindo por três vezes, depois de um minuto de silêncio)

Euler de França Belém — Os cientistas políticos dizem que há uma mudança curiosa na política brasileira: saiu um populista e entrou uma não populista, mais parecida, no perfil, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A oposição busca, para 2014, um quadro mais parecido com Lula, que é Aécio Neves. Há possibilidade de uma alternativa a Aécio Neves na oposição?

Antes de responder, vou repassar a melhor definição que eu já vi sobre políticos e cientistas políticos: o cientista político, para fazer um bolo, dá a receita corretíssima; cada político, ao preparar o mesmo bolo com a mesma receita, vai fazer um bolo diferente ao final. Porque, para fazer um bolo bom, são necessárias outras coisas além da receita: quanto tempo o fogo vai ficar aceso; qual é a espessura da forma; se o fogo estará baixo ou alto. Então isso é que o político faz. Voltando para a questão, houve durante a formação do PSD um diálogo intenso entre Gilberto Kassab e Eduardo Campos [governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB]. Mas o PSB não é de esquerda? Sim, o PSB é de esquerda, até porque (irônico) todo mundo sabe que o empresário Júnior do Friboi [sócio da multinacional JBS, recém-filiado e um dos principais dirigentes do PSB em Goiás, pré-candidato ao governo] é de esquerda. (risos)

Elder Dias — Isso [a falta de consistência ideológica] é “culpa” de quem?

Não existe culpa, isso é a realidade. (enfático) É preciso ter uma visão conceitual, é o mundo real, não se pode estar desconectado, fora da realidade. Todos podem e devem ter uma visão conceitual, se ancorar em princípios, em valores. Eu mesmo faço um imenso esforço nesse exercício conceitual. Mas, se eu sou um político, não posso desconhecer a realidade, tenho de conviver com ela. Então, houve um forte diálogo político entre PSD e PSB. Aí é que eu digo sobre o “novo” na política: o “novo” é o fato de o PSD ter entrado no cenário político e já poder alterá-lo. Então, o partido é novo, nesse sentido. Para 2014, pode haver uma aliança — não estou dizendo que será feita — fora da polarização entre PT e PSDB. Qualquer partido que surgisse com essa consistência quebra a mesmice do sistema partidário.

Cezar Santos — O PSD areja o cenário político, então?

Sim, quebra-se a mesmice. É como se, em vez de virmos aqui todo dia e sentar aqui nestas cadeiras, fôssemos para a cozinha para conversar. Quebrou a mesmice. Se foi para melhor ou para pior, isso é outra análise, mas quebrou! (enfático) Então, eu sinto que estou feliz no PSD, por ter a perspectiva de influenciar, coisa que eu não tinha no DEM.

Euler de França Belém — Voltando a Goiás, qual é o projeto de Marconi Perillo. Ele vai se candidatar em Brasília, tem um projeto nacional também?

Marconi é um político jovem, bem-sucedido e Goiás não é mais um Estado periférico. Portanto, é legítimo e natural não descartar e até pensar na possibilidade de ele, líder desse projeto, ocupar um espaço nacional. O que isso não pode ser — e eu disse a ele —é obsessivo. Tem de cumprir bem o papel como governador, não pode trabalhar os quatro anos em função de uma obsessão. Isso é importante até para qualificá-lo para o futuro. Para uma eleição majoritária, é necessário primeiramente estar qualificado. Se você vai disputá-la ou não, isso vai depender das circunstâncias do momento político. Isso serve para Marconi e serve para mim. Eu tenho um projeto: gostaria de ser senador e acho que estou qualificado e tenho experiência e história para pleitear o Senado. Mas será que vou ser candidato? Não sei, vai depender das circunstâncias políticas de 2014, de como vai evoluir o quadro. Esse exemplo vale também para o governador. Marconi Perillo é jovem, é qualificado, mas tudo dependerá das condições políticas. Acho que até estrategicamente, em termos de uma gestão política para o Estado, em vez de ficar contra essa possibilidade [de Marconi disputar a presidência], temos é de aceitá-la. A gestão política é muito mais importante do que a gestão puramente administrativa. Qual é o mal de levantarmos essa hipótese?

Euler de França Belém — Mas qual é o bem de ele falar que pode ser candidato em Brasília?

Isso aí, acredito, foi algo circunstancial, uma especulação, como surgem várias outras.

Márcia Abreu — O sr. acha que pode vingar uma candidatura nacional do senador Demóstenes Torres pelo DEM?

(pensando por um tempo) Politicamente pouco provável.

Euler de França Belém — Júnior do Friboi está montando uma base política para 2014. Não pode ser superestimado, mas também não pode ser subestimado. Como o sr. entende esse movimento dele, um empresário, entrando na política em Goiás?

Só para esclarecer, quando citei Júnior do Friboi anteriormente, foi apenas para ressaltar essa ambiguidade da política brasileira sobre esquerda e direita. O que vejo nele é um fato diferente no quadro goiano. Dependendo do sucesso que obtiver em seu trabalho, ele pode mudar a correlação de forças políticas no Estado. De qualquer maneira, como também ocorre com o PSD, ele é algo novo e que pode alterar o quadro. Prevejo uma enorme possibilidade de, em 2014, o quadro ser diferente, tanto em nível nacional quanto em nível estadual.

Euler de França Belém — Se Marconi tentar um novo mandato em Goiás, será para ficar 16 anos no poder. Em 1998, ele ganhou de Iris Rezende com o discurso de que o PMDB já estava havia 16 anos no comando. Isso vai ser usado contra ele. Não é a hora de renovar, de Marconi apostar em outro político para governador?

O PMDB ficou 16 anos no poder. Então ainda temos crédito até 2018. (risos) A renovação sempre é salutar, mas nem sempre é com pessoas, mas com métodos, com práticas. Em 2014 pode pintar um quadro de necessidade de renovação e mudança. O que vejo é que nossos adversários são muito incompetentes, tem demonstrado muita incompetência política nos últimos anos. Então, temos de nos reciclar é a nós mesmos, na base. O PSD, ao abrigar figuras exponenciais que estavam no PMDB, não pode ser o germe de renovação nessa base? Eu achei politicamente corajosa — e soube antes e apoiei essa decisão — a ideia de oferecer a Secretaria da Educação para o deputado Thiago Peixoto. Foi um gesto político e partidário ousado, de renovação, entregar uma das principais pastas do governo a um dos expoentes do adversário. Esse foi um gesto forte do impulso de renovação da nossa base.

Elder Dias — E de aniquilamento da outra.

(risos gerais) Verdade. É como agora, trazendo Francisco Vale Júnior [ex-PMDB], que foi secretário municipal, vereador, presidente da Câmara de Goiânia e deputado estadual. Vamos dar espaço para ele fazer seu trabalho político. Acredito que isso seja uma demonstração, um desejo nosso de renovação interna.

“Paulo Garcia é forte, mas temos nomes para a vitória nas eleições em Goiânia”

Elder Dias — Até porque ele é da Renovação Carismática Católica... (risos)

É isso. Ou renova, se recicla, ou morre e perde o poder! Mas é bom saber também que em um partido político é preciso conviver com todo tipo de gente. Como me disseram uma vez, rio não enche só com água limpa. Vêm toco, cachorro morto, pedaço de pneu. (risos)

Márcia Abreu — O sr. vai esperar 2014 para ser candidato? Quem será o nome do PSD para as eleições municipais.

Há uma frase que diz que “na política, na guerra e no amor não existe sempre nem jamais”. Nada é definitivo. Não pretendo e não é projeto meu me candidatar a prefeito em Goiânia. É projeto meu e eu pretendo disputar uma vaga na eleição majoritária de 2014. Gostaria de disputar o Senado. Para Goiânia, estabelecemos uma diretriz: temos alguns nomes, Armando Vergílio, deputado federal e presidente do diretório no município; Francisco Júnior, deputado estadual; Thiago Peixoto, deputado e secretário da Educação; Virmondes Cruvinel Filho, vereador. Então, no momento, estamos trabalhando para ter uma chapa forte de vereador e vamos deixar essa decisão sobre o nome para Goiás para o próximo ano. Definiremos junto com a base se teremos candidato único ou vários. Sempre defendi que todo partido deva lançar candidato para eleição majoritária, desde que ele tenha consistência política e eleitoral. Sou contra a tese de lançar só por lançar, por achar que o eleitor despreza isso, entende que é só para ocupar espaço.

Elder Dias — O sr. tem uma preferência, uma opinião, entre a base lançar um só candidato ou vários?

Não, ainda não tenho opinião formada. É preciso deixar a bola correr mais em campo para ver como o quadro evolui. Mas a nossa estratégia é para ganhar a Prefeitura. E vou dizer mais: na minha avaliação, temos condições de disputar muito bem a eleição em Goiânia.

Herbert de Moraes Ribeiro — Quais as chances da base aliada nas principais cidades, Goiânia, Anápolis e Aparecida?

Em Anápolis, a situação é mais difícil; em Aparecida, o grau de dificuldade é médio; a maior possibilidade é em Goiânia.

Euler de França Belém — Paulo Garcia começou timidamente, apenas como alguém apoiado por Iris, mas está crescendo, fazendo obras, com discurso próprio. O sr. não está subestimando o prefeito, não?

Ele será um candidato forte, portanto não o estou subestimando. Mas vejo que temos espaço para a vitória em Goiânia.

Euler de França Belém — Em que Paulo Garcia é diferente de Antônio Gomide [prefeito de Anápolis] e de Maguito Vilela [prefeito de Aparecida]?

São circunstâncias políticas diferentes.

Euler de França Belém — Em relação ao Estado, para onde estamos indo? Ou estamos apenas pagando funcionários e dívidas?

É normal que no primeiro ano tenhamos de arrumar a casa. Goiás não é diferente de outros Estados. A capacidade de poupança que o governo tem para poder investir é pequena. Esse quadro não vai ser alterado em curto ou médio prazo. O que estamos fazendo é um forte trabalho em parcerias público-privadas (PPPs), terceirização e busca de investimentos privados, para que a economia cresça por aí, já que não temos dinheiro nem capacidade de investimentos no Estado. Na área da saúde, o governo tem uma firme determinação de entregar grande parte da gestão dos hospitais públicos para as OSSs [organizações sociais de saúde]. Terceirizar a gestão, porque a gente acha que vai ser mais barata e mais eficiente! (enfático) Já temos uma experiência vitoriosa em Goiás, com os casos do Crer e do Hospital Regional de Anápolis. Trabalho diariamente para trazer investimentos privados para o Estado. Além dos incentivos, é preciso também agilizar as licenças ambientais e investir na infraestrutura. A PPP para o caso do VLT [veículo leve sobre trilhos] está sendo conduzida, assim como mais hospitais e também presídios com essa política. Estamos estudando o caso de entregar a Iquego também para a Cruz Vermelha.

Euler de França Belém — A meritocracia vai mesmo modernizar a máquina pública?

Creio que sim. É um passo importante. Tem de ser feito devagar, porque há resistências, mas é o caminho certo.

Herbert de Moraes Ribeiro — O sr. acha que Marconi consegue viabilizar o governo sem apoio da presidente Dilma Rousseff?

Qualquer Estado brasileiro, para se viabilizar, precisa ter um diálogo político, institucional e administrativo com o governo federal. Em função da eleição de 2010, essa relação começou muito travada, com muitas portas e janelas fechadas. O governo de que faço parte está trabalhando para abrir essas portas e janelas com grandeza. O PSD pode ser instrumento para ajudar nisso. Dentro desse conceito, não temos medo da patrulha e da mediocridade que há na pecha de adesista. Quem é seguro do que está fazendo não tem medo de ser tachado como adesista. Eu, como deputado, não vou ser adesista ao projeto do PT. (enfático) Mas, como secretário de Estado, tenho de pensar no governo, na sociedade, etc. Para cumprir nossos projetos, é importante ter esse relacionamento com o governo federal. Um fato concreto é o caso Celg. É a maior empresa do Centro-Oeste e estamos todos atrás de uma solução, inclusive para viabilizar recursos para o Estado. Hoje, a Celg só paga 70% do ICMS que deve. Os 30% que não paga dá algo em torno de R$ 20 milhões mensais. Por ano, são R$ 240 milhões! Portanto, se for importante para o Estado, temos obrigação de manter e aprimorar essa relação.

Herbert de Moraes Ribeiro — Estamos no nono mês de governo e até agora não se vislumbra nenhuma possibilidade de aproximação com o Planalto. O governador ainda não foi convidado para conversar com a presidente sobre os problemas de Goiás. Essa barreira vai continuar?

O quadro de diálogo, hoje, é muito melhor. Acho normal, não é muito do estilo da presidente Dilma receber individualmente algum governador, nem mesmo do PT. Não há veto de nenhuma espécie para Goiás, assim como vejo que não há para nenhum outro Estado.

Euler de França Belém — Tudo indica que o governo federal está cozinhando o governo estadual e a saída será federalizar a Celg. Não terá alternativa, já que o setor privado não quer comprar. Não é um bom negócio para o Estado?

Tudo está sendo avaliado pelo governo. Nem tudo sai quando a gente deseja, temos de esperar.

Herbert de Moraes Ribeiro — Existe uma iniciativa privada atuando independentemente do Estado e que está mantendo a economia goiana. Mas não temos infraestrutura nem dinheiro para investir. Parece que só seria possível alguma melhoria se houvesse um interesse real de parceria do governo federal, mas não vejo nada nesse sentido.

Mas o governo federal também tem suas dificuldades. Veja, como exemplo, a Ferrovia Norte-Sul, que segue a passos lentos. Do ponto de vista dos demais Estados, também não há grandes investimentos. Não há solução de curtíssimo prazo, mas é o que já falamos: precisamos de fazer parcerias, seja por PPPs, seja com o governo federal; também estamos controlando despesas e tentando aumentar a arrecadação. Esse esforço está sendo feito e, às vezes, os resultados não são tão rápidos quanto a gente espera. Estamos fechando um empréstimo de R$ 600 milhões com o BNDES para concluir as estradas já iniciadas — nada a ver com o plano de recuperação, que é outra questão.

Elder Dias — Nesta entrevista, o sr. fez uma imagem muito simbólica sobre o momento em que a lei da fidelidade partidária entrou em vigor: pessoas congeladas em diversas posições, nem sempre na que prefeririam. O PSD, de certa forma, resolveu o problema dessas pessoas. Mas o sr. não acha que daqui a quatro anos vamos ter outro PSD, ou seja, vai ser preciso outra acomodação?

Não. O que precisamos é disciplinar claramente essa questão da fidelidade partidária no Brasil. A maioria absoluta dos países democráticos não tem lei de fidelidade, não há punição para quem muda de partido. Mas, como o quadro doutrinário e político é mais definido, o político acaba por inviabilizar-se, perde sua base de apoio. Aqui no Brasil, creio que ainda precisamos de uma lei de fidelidade partidária. Discordo da tese de cassar o mandato de quem muda de partido. Seria mais adequado torná-lo inelegível à eleição seguinte. Mas precisamos disciplinar essa questão.

 
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