Rodízio não é uma boa ideia
O debate do rodízio de carros proposto pelo deputado Evandro Garla não é visto com bons olhos e o parlamentar é chamado de “irresponsável e sem noção”. Especialistas dizem que o modelo só daria certo combinado a um transporte coletivo eficiente
O deputado distrital Evandro Garla (PRB) quer enfrentar o trânsito caótico com a implantação de um rodízio de veículos. A proposta está no Projeto de Lei (PL) 197/2011. No entanto, a ideia não é bem vista por especialistas. Os rumores da população também demonstram insatisfação quanto à solução, que já se submete à apreciação na Câmara Legislativa. Mas Garla enfatiza: “é hora de unir forças em prol de um trânsito melhor com transporte público de qualidade transitando pelas vias”.
Na Casa Legislativa a discussão ainda é recente, mas o deputado distrital Chico Leite (PT) já se manifesta contra o modelo nas ruas de Brasília. Já os outros distritais estão estudando a ideia e ainda não se pronunciaram publicamente contra ou a favor.
O PL foi aprovado pela Comissão de Economia Orçamento e Finanças (CEOF) no fim da semana passada. Agora segue para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) onde, se aprovado, seguirá para plenário.
O projeto tem causado muita polêmica entre a população. Garla não se intimida e reafirma: “fui chamado de irresponsável, sem noção e vários outros adjetivos, mas quero ressaltar que fui o único parlamentar a levantar essa polêmica e tentar buscar uma solução para o caos do trânsito, que vem se arrastando governo após governo.”
A ideia é restringir o uso de carros, de acordo com as placas de licenciamento e as vias determinadas. O Poder Executivo fará uma análise para descobrir e selecionar as vias com maior retenção de veículos e, assim, especificará as áreas que ficarão restritas e os períodos do dia em que a restrição vigorará.
Na segunda-feira os veículos cujos dígitos finais das placas de licenciamento sejam os pares 1 e 2 ficarão sem rodar nas vias escolhidas. Na terça, os pares 3 e 4 serão restringidos. E assim, respectivamente, até a sexta, com os dígitos finais 9 e 0. O PL propõe o funcionamento do esquema durante seis meses, e em seguida, uma avaliação por meio de técnicos ou pesquisa para saber a necessidade de dar continuidade, cancelar ou alterar o rodízio de veículos.
O rodízio não se aplica aos transportes coletivos, às motocicletas e similares, aos táxis, aos escolares, aos guinchos, e outros empregados em serviços essenciais e de emergência. O artigo 3º do PL garante a penalidade segundo o Código de Trânsito Brasileiro, caso os motoristas não obedeçam a regra.
Novos problemas
Para o deputado Chico Leite ao invés de resolver o problema do trânsito, o rodízio causa outros. “Onera mais a população, estimula a burlar o rodízio comprando mais carros, como ocorreu em São Paulo. O aumento torna o fluxo pior e traz mais poluição”, afirma. Chico entende que o problema também não vai se resolver alargando vias, como no exemplo feito na EPTG, em que há o mesmo engarrafamento no centro de Taguatinga a partir da Caesb.
“A medida que deve ser tomada é transporte coletivo de qualidade e eficiente. Deve-se
fazer licitação para colocar o transporte coletivo a respeito do usuário e não de determinado oligopólio, como sempre foi. Além de ampliar os serviços do metrô”, detalha o parlamentar.
Ações combinadas
Paulo César Marques, professor de engenharia civil e ambiental da Universidade de Brasília (UnB) – ele já coordenou o programa de pós-graduação em transportes –, o PL 197/2011 não é uma boa solução para o trânsito do DF. Ele explica que há dois grandes problemas que permeiam a ideia. “Primeiro que medidas de restrição à circulação do automóvel é importante, mas a redução não vai acontecer com medidas isoladas. É preciso que haja um conjunto de medidas de planejamento combinadas, pois assim elas são mais fortes e efetivas”, destaca o professor.
Artur Morais, especialista em transporte da UnB e professor de engenharia de produção da Facitec, concorda que para melhorar a qualidade do transporte público no DF só o rodízio de carros não resolve. No entanto, ele acha importante colocar o assunto em debate, principalmente, pelo fato de cutucar a classe média. “Já vale pela discussão, pois a classe média que sempre se preocupou só com pistas e viadutos, infraestrutura para poder utilizar os carros, agora se imagina na situação da restrição do uso”, ressalta.
Paulo César observa, em segundo lugar, que o rodízio só funciona por um período curto. Isso porque com o tempo as pessoas resolvem comprar outros carros, o que significará aumento da frota que era para ser minimizada. “O rodízio só funciona durante quatro a cinco anos”, enumera.
População afetada
Com a população as opiniões são parecidas. Aqueles que não se importam com a mudança são os que têm mais de um ou dois carros. Bruno Xavier, 26, sai de Sobradinho para o Plano Piloto de segunda à sexta-feira para trabalhar e estudar. Ele varia: algumas vezes vai de carro e outras de ônibus. “Acredito que esse projeto de lei é apenas uma forma de disfarçar o problema do trânsito. Se houvesse uma melhor qualidade do transporte público, isso sim estimularia a utilização dos ônibus e metrô, não havendo a necessidade de tantos carros transitando pela cidade”, opina.
Fonte: Jornal da Comunidade/ PRISCYLLA DAMASCENO
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