Impunidade Polícia Civil não explica demora no caso Polyanna
Tânia Arruda Borges, mãe da publicitária Polyanna Arruda, morta em 23 de setembro de 2009, em entrevista ao Jornal Opção publicada na edição anterior, fez graves denúncias em relação às autoridades policiais envolvidas no inquérito da filha, que até hoje não foi concluído. Ela acusou o ex-secretário de Segurança Pública Ernesto Roller (PMDB) de omissão e apontou a falta de comunicação que imperou entre os três delegados que, inicialmente, investigaram o caso — Abézio Leite Barbosa, Alzemiro José dos Santos e Douglas Pedrosa — e que, segundo ela, foi observada em vários episódios. Tânia Arruda contou que esteve na delegacia prestando depoimento a Douglas Pedrosa, cerca de dois meses após o crime, e que o delegado Abézio Bessa, então responsável pelo caso, não tomou conhecimento desse depoimento. Só ficou sabendo ao convocar a mãe de Polyanna para depor, dias depois.
Na opinião de Tânia Borges, o inquérito não foi concluído por causa das falhas que ocorreram no início da investigação. Segundo ela, devido à demora em se encontrar o corpo — 30 horas — o Instituto Médico Legal não soube nem precisar a hora da morte. “Virou uma confusão tremenda, porque, com essa questão do tempo, ficou muito mais difícil colher material para exame de DNA. Podiam ter mais provas”, diz. Na entrevista, Tânia Arruda diz que Aredes Correia Pires, então delegado-geral da Polícia Civil, lhe disse, certa vez, que a investigação estava prestes a ser concluída. “Nove meses depois do crime, por meio de uma petição de um advogado, conseguimos que o inquérito mudasse para a delegacia que o Serviço de Inteligência havia recomendado.”
Aredes Correia, hoje corregedor-geral da Segurança Pública, reconhece que Tânia Arruda tem direito de cobrar a atuação da polícia. “Respeito a dor dela e entendo a cobrança, mas não faltou empenho dos investigadores.” No fim do ano passado, conta, 40 policiais trabalharam com exclusividade no caso. A Polícia Civil conta com cerca de 3 mil homens. “A equipe pode ter cometido erros, mas tinha boa intenção.”
O corregedor admite a falta de comunicação entre os delegados, como Tânia Borges relatou. “O que é lastimável. Houve erro, não há dúvida, e pode ter ocorrido até em razão da pressão, do clamor que o caso suscitou na população.” Para Correia, a demora em encontrar o corpo, que havia sido avistado por uma pessoa que denunciou na polícia, é um erro gravíssimo. “É óbvio que nas primeiras horas após o crime o resultado da perícia é bem mais satisfatório.” Apesar da série de equívocos, Aredes Correia não percebeu nenhum erro que justificasse ser encaminhado à Cor-regedoria. “Eles podem ter trabalhado mal, mas não houve erro formal na investigação.”
Aredes Correia nega que tenha dito a Tânia Arruda que o caso estava perto de ser solucionado. “Nunca prometemos solução, prometemos empenho.” Segundo ele, o caso é complexo, “mas deve caminhar para apontar as pessoas que já estão presas como autores do crime”. Estão presos Marcelo Barros Carvalho e Assad Haidar de Castro. O fato de integrantes da quadrilha suspeita de matar a publicitária terem morrido ao longo da investigação – Lavonierre da Silva Neiva, Luciano Assis Neiva e Deberson Pereira Leandro – complica mais o caso, afirma Aredes Correia. “Mas não podemos esquecer que bandidos são mais suscetíveis a se tornarem alvos, mas as mortes complicaram a investigação”, afirma. O suposto sexto componente da quadrilha, Edson Pereira de Paula, chegou a ser preso por receptação, mas foi solto provisoriamente e fugiu.
Na entrevista, Tânia Borges afirma que o secretário de Segurança Pública, João Furtado, tirou o inquérito da mão de Odair Soares e o deixou na mão do delegado Valdemir Branco. Arédio Correia afirma que “Branco foi indicado para assumir o caso porque ela pediu.” À época, com o ex-diretor, a secretária de Segurança Pública era Renata Cheim e, segundo Correia, Tânia Borges pediu para que os delegados Abézio e Douglas deixassem o caso. “Ela me fez o pedido duas vezes e eu acatei da segunda vez, porque a relação entre a família e os delegados estava meio estremecida.” Ele conta que o delegado Branco era da Delegacia de Furtos de Veículos e tinha informações sobre o caso, o que justificava a transferência.
Quanto ao atraso nas investigações, Correia afirma que a pressão para acelerar pode, ao invés de ajudar, causar prejuízo ao andamento do processo. Além disso, há situações que independem da polícia. É o caso dos relatórios de operadoras de telefonia, “que têm má vontade em fornecer informações”. Segundo o corregedor, qualquer informação sobre telefonema solicitado pela Justiça demora de quatro a cindo meses para ser fornecido pelas operadoras. “Antes o problema era resolvido aqui, agora toda informação tem que ser obtida no Rio de Janeiro.” Segundo Correia, por causa da impossibilidade de se fazer o exame de DNA em Goiás à época, o material foi encaminhado para Brasília, o que também comprometeu a investigação. “Temos carência de tudo, de equipamentos e de recurso humano e isso influencia na investigação. É desumano um delegado cuidar de mil casos, como ocorre na Delegacia de Homicídios.”
O atraso na investigação não deve comprometer sua solução, afirma Aredes Correia, que admite que o tempo sempre prejudica o inquérito. Segundo ele, as provas já estão reunidas e, mesmo que tenham ocorrido erros no processo, não houve grande perda. Além disso, afirma o corregedor, o delegado Odair Soares trabalha no caso desde o primeiro dia de investigação e tem todas as informações, a despeito do processo ter passado de mão em mão dentro da polícia.
“Situação mais grave é de Camila Lagares, desaparecida de abril de 2009.” O caso ela corre risco de ficar sem solução.
A reportagem do Jornal Opção tentou ouvir todas as pessoas citadas por Tânia Borges. Na opinião do delegado Douglas Pedrosa, a caso não foi solucionado porque é complexo. “Não se descobriu a autoria pelos meios convencionais.” Mas ele nega erro na investigação. “Não teve prova técnica que deveria ser colhida e que não foi colhida.” O delegado afirma que muitos casos dependem do tempo para ser solucionado. “A morte do filho de um delegado de polícia, por exemplo, levou três anos.”
Quanto ao atraso para se descobrir o corpo de Polyanna Arruda, Pedrosa diz que a investigação foi bem feita. “Tanto que um parente da vítima participou das buscas.” Ele admite que o corpo estava em um local que facilitava a ação de germes e bactérias, mas afirma que isso não prejudicou a produção de provas. “Co-lhemos material para exame de DNA e o resultado não aponta para nenhum dos suspeitos.” Pedrosa também nega a dificuldade de comunicação entre os delegados envolvidos na investigação. Era Douglas Pe-drosa o delegado que ouviu Tânia Pedrosa por mais de uma hora e meia e não fa-lou nada para Abézio Bes-sa. “Havia interatividade de informações entre nós.” Ele diz que há um ano duas delegacias cuidam do caso e os delegados não acharam nada que eles não haviam descoberto em três meses de investigação.
Douglas Pedrosa foi quem também mostrou várias pastas de crimes não solucionados para Tânia Borges e disse: “Está vendo essas pastas? Esses aqui são os crimes que não são solucionados. Nós os chamamos de ‘nossos filhinhos’.” Segundo ele, são as investigações em andamento na delegacia. “No 1° DP tem mais de 10 mil.”
O ex-secretário de Segurança Pública Ernesto Roller diz que o sentimento de dor da família motivou as declarações de Tânia Borges ao Jornal Opção. Segundo ele, não houve omissão por parte da secretaria, pelo contrário, houve muita cobrança. “Disponibilizamos todos os meios possíveis para reforçar a investigação.” Ele questiona o fato de, depois dele, terem passado dois secretários pela secretaria sem que o caso fosse solucionado. “Quem investiga é a Polícia Civil e é ela que deve responder.” Ele diz que a Polícia Civil de Goiás é bem preparada e obtém resultados. “Lamentavelmente, nesse caso, o resultado não foi obtido.” O que não é normal. “Mas existem casos difíceis de ser elucidados.”
O delegado Abézio Leite de Bessa foi citado por Tânia Borges diversas vezes na entrevista, inclusive nos dois trechos a seguir: 1) “Dr. Abézio me ligou para perguntar o número de um telefone de uma pessoa que a Polyanna já tinha namorado, cujo nome a gente já tinha falado várias vezes, repassado o número do telefone. Ele disse que tinha perdido o papel. Era um mês depois e ele nem tinha chamado aquela pessoa ainda! Enfim, era um descaso total, uma coisa terrível, muito difícil ali naquela delegacia.” 2) “Quem conduziu a investigação de forma errada, que levou a se suspeitar do próprio Thiago, foi a polícia, que não ouviu as pessoas em tempo hábil, que não foi pegar o corpo em tempo hábil apesar de ter sido avisada por uma pessoa.”
Abézio Bessa não quis comentar a entrevista. “Queria dar uma entrevista tête-à-tête com ela (Tânia Borges).” Segundo ele, o assassinato de Polyanna é um caso polêmico e que, um dia, quando estiver fora da Secretaria de Segurança Pública e não falar em nome da Polícia Civil, pretende contar tudo. “Falar em nome do Abézio.” Ele conta que o crime “envolveu governo, envolveu todo mundo.” Questio-nado se envolveu policiais, ele diz que não pode falar enquanto estiver na polícia, que precisaria de autorização. Ele afirma que quem deveria dar explicações sobre o caso não é a Polícia Civil, mas a Secretaria de Segurança Pública, que é quem nomeia o secretário da pasta e o diretor que comanda a Polícia Civil. “O diretor-geral deve ter tido fortes argumentos para retirar o inquérito das minhas mãos, motivos que não sejam políticos.” Ele questiona: “As decisões foram todas tomadas com competência? O governo nomeou as pessoas certas?” Abézio Bessa afirma não querer polemizar, mas diz que “espera que quem esteja resolvendo o caso não invente autor para o crime”.
Os delegados Odair Soares e Kleyton Alencar são os responsáveis pela investigação. Alencar não atendeu as ligações do Jornal Opção. Como Armando Falcão, o homem da censura na ditadura, ele nada tem a declarar. Já Soares atendeu pela manhã e disse que, à tarde, daria uma resposta sobre o pedido de entrevista para esclarecer todas as dúvidas de Tânia Borges. Ele chegou a comentar que não havia lido a entrevista da mãe de Polyanna, mas sabia da repercussão dela no meio policial. Segundo ele, o fato de Tânia Borges tê-lo poupado de críticas estava lhe causando certo constrangimento com os colegas. “Estão dizendo que eu que articulei isso.”A reportagem solicitou a Odair Soares uma entrevista com Marcelo Barros Carvalho, preso na Delegacia de Homicídios, e o contato de “Django”, suspeito de ser o receptador da quadrilha.
Na segunda ligação, no mesmo dia, Odair Soares disse ter lido a entrevista de Tânia Borges e encontrado diversas “inverdades” (mas não listou nenhuma). Ele disse que estava ao lado do delegado Kleyton Alencar e que, depois de ler o material, ambos haviam decidido não falar com a imprensa antes de relatar o inquérito — num comportanto típico do tempo da ditadura civil-militar. Negou-se a permitir a entrevista com Marcelo Carvalho e a dar o contato de “Django” (quem o protege?), assim como o acesso da reportagem ao inquérito. Mudou completamente de atitude da manhã para a tarde.
A reportagem procurou o secretário de Segurança Pública, João Furtado, e o diretor-geral da Polícia Civil, delegado Edemundo Dias. Ambos estavam fora de Goiânia e não foi possível entrar em contato via telefone celular, sempre desligado. Enquanto eles estavam de folga, seis pessoas foram mortas em menos de 12 horas. Fica-se com a impressão de que a cúpula da polícia está sempre “viajando”.
Apontado como integrante da banda ética da Polícia Civil, Edemundo sempre diz: “Estamos apurando”. Até quando vão continuar dizendo que estão apurando? Até a Polícia Federal abrir a caixa preta da falta de investigação policial em Goiás? O Jornal Opção vai verificar e mostrar à sociedade, daqui a 20 dias, se o delegado do caso Polyanna acrescentou alguma informação relevante à investigação.
Polyanna Arruda estava no carro “certo”
A estudante Camila Lagares foi morta porque estava no lugar errado na hora errada. Já Polyanna Arruda estava no carro errado. Ou no carro “certo”, do ponto de vista dos criminosos. Ela foi morta porque seu carro havia sido encomendado por alguém que queria “montar” um veículo da mesma marca e cor a partir de uma carcaça adquirida em um leilão. Segundo o gestor de negócios Luciano Vilela, o modelo Prisma, da GM, carro de Polyanna, não está entre os carros com constância de furtos e roubos. Ele afirma que, da linha de carros de passeio, o Prisma não é o mais visado. Os mais roubados e furtados são o Corolla, Honda Civic, Pálio Weekend Locker e Pick-ups em geral, L-200, Hilux, S-10.
Segundo o delegado Jorge Moreira, que acompanhou a investigação de Polyanna Arruda no início, os suspeitos queriam o Prisma preto — eles roubaram o veículo da publicitária de manhã e outro do mesmo modelo à noite — porque o veículo havia sido encomendado por Django, o suposto receptador. Ele teria comprado um Prisma preto em um leilão — provavelmente um veículo que se envolveu em algum acidente — e precisava “montar” o carro com as peças de um veículo igual. Há suspeitas de que a quadrilha contava com proteção de alguns policiais militares, o que também dificulta a investigação. Os policiais estariam por trás da morte de três integrantes de quadrilha. Teria sido o que a polícia chama de “queima de arquivo”
Fonte: Jornal Opção/ Andréia Bahia
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