Bala perdida ou "atentado à liberdade de imprensa"?
Dizer apenas que Gelson Domingos foi morto por traficantes não atende ao rigor e à precisão jornalística com que o episódio merece ser tratado.
Na manhã do último domingo, dia 5 de novembro, o cinegrafista da Band Gelson Domingos, de 46 anos, morreu com um tiro de fuzil no peito quando acompanhava uma ação policial contra traficantes de drogas na favela de Antares, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.
À noite, no programa Fantástico, a Rede Globo noticiou a tragédia como “um doloroso atentado à liberdade de imprensa no país”. No dia seguinte, segunda-feira, no Bom Dia Brasil, a frase foi repetida quase que palavra por palavra: “um doloroso atentado à liberdade de imprensa no Brasil”, dando a impressão de que Gelson foi vítima de um tiro certeiro dirigido a um jornalista a fim de impedir que seu trabalho fosse feito, e não de uma bala perdida, como de fato tudo indica que aconteceu.
Este enfoque do ataque à imprensa — e não o da falta de segurança no exercício da profissão de jornalista — também foi o adotado pela Associação Nacional de Jornais, a ANJ, uma entidade patronal, na nota que divulgou sobre a morte de Gelson: “Essa é mais uma demonstração da insegurança que atinge os brasileiros, que afeta a liberdade de imprensa e de expressão”.
Dizer que Gelson Domingos “foi assassinado por traficantes enquanto cobria uma operação policial” e que o jornalista da Band foi “silenciado” por uma bala de fuzil não é propriamente uma mentira, mas talvez seja um sofisma muito conveniente para os patrões dos cinegrafistas em geral mandados para cobrir de perto — perto demais — a violência no Rio de Janeiro, bem como para os chefes (reunidos na ANJ) de fotógrafos e repórteres incumbidos da mesma missão.
"Mais alguns pontinhos no Ibope"
No mesmo dia em que Gelson Domingos caiu morto na favela de Antares com um tiro de fuzil no peito, o jornalista, consultor e analista de mídia Roberto Marona publicou em sua página no Facebook uma lista de seis hipóteses que, fossem elas realidade, talvez Gelson Domingos estivesse vivo:
“Se fosse orientado a não se aproximar do conflito, ficando à distância segura, mesmo que isso prejudicasse um pouco a qualidade das imagens”.
“Se orientado a filmar de longe, recebesse a ordem de fazer de perto apenas o rescaldo da operação depois do tiroteio, quando houvesse mais segurança para o trabalho dos jornalistas no local”.
“Se algum chefe experiente e menos ansioso dissesse a ele e a toda a equipe que estas imagens, ainda que chocantes, não valem a vida de um jornalista e, portanto, não são assim tão necessárias”.
“Se as emissoras concluíssem, como deviam, que seus jornalistas não estão cobrindo a guerra do Vietnã ou do Iraque porque, se estivessem, teriam seguro de vida, usariam uniforme especial, estariam sob proteção das Forças Armadas do país cuja ação estivessem acompanhando e teriam, enfim, tantas imagens e tão ricas que poderiam ser feitas à distância segura”.
“Se as emissoras e os jornalistas parassem para avaliar se vale mesmo a pena botar a vida de um profissional em risco para conseguir meia dúzia de sobe-sons de tiros apenas para obter mais alguns pontinhos no Ibope”.
“Se todos os chefes que mandam estes jornalistas buscar imagens sem tanta importância com o risco de suas vidas fossem, eles próprios, de vez em quando, aos locais dos conflitos, para ver o que é bom pra tosse”.
"Estes coletes são lixo, são de papel"
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) divulgou nota sobre a morte de Gelson na qual acusa o Sindicato dos Proprietários das Empresas de Radiodifusão e das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas de resistir à adoção de medidas concretas para a proteção dos funcionários. Segundo o SJPMRJ, as ações de proteção foram prioridade após a morte de Tim Lopes, mas hoje estão sendo proteladas pelo sindicato patronal.
“A estrutura dada aos profissionais é pífia já no item mais básico: o colete à prova de balas. O Sindicato dos Jornalistas já havia alertado os veículos e exigiu que o material fosse analisado por especialistas do setor. Um repórter de televisão que estava próximo a Gelson Domingos durante a operação na manhã deste domingo e foi até a UPA acompanhar o corpo, confirma: ‘Estes coletes são lixo, são de papel’”, diz a nota.
O SJPMRJ afirma que chegou a propor ao Sindicato dos Proprietários das Empresas de Radiodifusão e das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas a criação de uma comissão paritária de segurança, mas a entidade patronal rejeitou a ideia dizendo que isso seria uma “interferência nas redações”.
“Interferência nas redações”, alegação prima-irmã dos reiterados alertas sobre “atentados à liberdade de impresa” por parte dos jornais e emissoras de TV. Alertas que muitas vezes são legítimos, necessários, mas outras tantas são corneteados sempre que os interesses das empresas de mídia são contrariados ou ameaçados — ou quando elas querem se eximir das suas próprias responsabilidades.
Fonte: Jornal Imprensa / Hugo Souza / Opinião e Notícia
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